Aos interessados em economia e política econômica trago aqui um texto do meu baú.
É do século passando, quando ainda nem existia meu Blog onde pensadores podem encontrar coisas novas sobre muitos assuntos. Minhas ideias não envelhecem
Previsões confirmadas, advertências para o futuro
Aos que acham estranho que um bispo se meta a escrever sobre economia, apresento aqui algumas explicações. Não sou economista, mas entendo de matemática e tenho bom senso, coisa que alguns perderam de tanto estudar teorias. Ao tratar de assuntos de economia, não é o bispo que ensina, é o matemático que fala.
Comecei a escrever na época do Plano Collor. Não aguentei ficar calado diante dos efeitos colaterais previsíveis da receita adotada para combater a inflação. A maioria dos economistas só percebeu mais tarde que os remédios aplicados contra a inflação tinham efeitos mais fortes contra o crescimento da economia. Tentei chamar a atenção para os problemas, na esperança de conseguir alguma mudança, mas nem consegui fazer-me ouvir.
Estamos num ano de crise que exige opções decisivas para o futuro do país. Alguém precisa se mexer para evitar a repetição dos mesmos erros que atolaram o país em dívidas, diminuiram o crescimento e aumentaram o desemprego. Até agora todos os planos econômicos tentaram vencer a inflação com a mesma receita: conter o consumo através de juros altos e aperto monetário. Em vão tentei alertar sobre as consequências negativas desta receita que pode ser eficiente num primeiro momento, mas atrasou o desenvolvimento e levou à situação atual de endividamento e de recessão, como previ e avisei.
Apresento em itálico algumas afirmações e previsões que venho fazendo desde o início da década. Se acertei até agora, seria bom levar em consideração as minhas advertências atuais, para não cair de novo nas mesmas armadilhas.
Escolhi as citações visando especialmente aqueles que ainda hoje defendem os juros absurdos para conter o consumo. É impressionante como os economistas da dívida insistem na aplicação dos mesmos remédios que vêm produzindo resultados desastrosos.
1) Querem superar inflação com recessão, um remédio pior que a doença. (Abril de 90)
2) Não sabiam que a contenção do consumo é caminho direto para recessão? (Abril de 90)
3) Dizem que existe dinheiro demais em circulação, mas quem procura dinheiro para investir na produção só encontra a juros altíssimos. (Junho de 90) Quem aguenta financiamentos com juros de agiota?
4) A contenção do consumo, apresentada como remédio contra a inflação, tem um efeito colateral que é pior que a doença. Trocar inflação por recessão é trocar febre por infecção hospitalar.
5) Se a inflação resulta de um desequilíbrio entre procura e oferta, a saída construtiva não está na contenção do consumo para diminuir a procura, mas na expansão da produção para aumentar a oferta. (Maio de 93)
6) Está na hora de fazer uma reforma monetária que possibilite a reorganização da economia do país. (Maio de 93) Depois desta minha proposta ainda levaram um ano para implantar o Real, e deixaram de aproveitar o momento favorável para derrubar os juros para níveis civilizados.
7) Está na hora de substituir dívidas e juros por dinheiro novo, vacinado contra a inflação. (Dez de 93) Perderam aquela ocasião excepcional, quando as dividas eram menores que as reservas em moedas e em estatais.
8) A coisa mais urgente é tomar medidas adequadas para diminuir o peso da dívida interna. … Se os economistas não sabem como conseguir uma redução substancial nos gastos com a dívida interna, posso apontar um caminho. Só a redução dos juros para níveis civilizados reduziria esta despesa para menos da metade. (Dezembro de 93)
9) Juros altos inibem a produção de hoje e alimentam a inflação de amanhã… Deixam os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. E desequilibram as finanças públicas. O grande pagador de juros é o Estado. (Dezembro de 93)
10) Não é a quantidade de dinheiro no mercado que provoca inflação, mas a falta de dinheiro para a produção. (Dez 93)
11) Tenho certeza que a única saida que temos é cortar de uma só vez os quatro males, a inflação, a recessão, o desequilíbrio das finanças públicas e os juros exorbitantes. É um dragão de 4 cabeças. Se cortar uma só, ela cresce de novo. (Dez 93) Tentaram eliminar apenas a inflação, e agora ela está de volta. Até que demorou. Mas esta demora custou caro. Agora temos inflação com recessão, desemprego e endividamento público. Uma combinação de fatores perversos. Algum economista consegue imaginar uma situação pior?
12) O Brasil que estava esperando um projeto para reerguer o país, está com mais um plano que pisa no freio. Outro empurrão na inflação pelo atalho da recessão. O que é isto, Sr. Ministro? Mais recessão para nós? (Dez 93). As citações de 7 a 12 são de uma proposta alternativa que tinha feito ao Plano FHC. O então ministro FHC me respondeu num telegrama que o plano dele não seria recessivo.
13) Num país com milhões de famílias sem pão e sem casa, é preciso implantar um novo dinamismo de crescimento acelerado, já. Chega de metas acanhadas. O medo do crescimento está paralisando os economistas e a economia. (Março de 94)
14) Os economistas da recessão dizem que o Banco Central deve continuar com a política de juros para conter o consumo. Pretendem curar a febre da inflação com a cama de gelo da recessão. (Março de 94)
15) Conter o consumo é atrapalhar o crescimento. É impedir que o brasileiro encontre trabalho, coma melhor, construa sua casa, compre seus móveis, tenha estradas, escolas, eletricidade, um serviço de saúde adequado. (Março de 94)
16) Sem aumento de consumo não há crescimento. Se estivéssemos diante da alternativa entre inflação e recessão, devíamos optar pelo crescimento, mesmo que fosse com inflação. Mas este dilema existe apenas na cabeça de economistas formados nas teorias econômicas complicadas do Norte. (Março de 94)
17) Se os juros reais não forem reduzidos a 12 % ou menos, na hora da passagem para o real, teremos apenas mais um plano econômico fracassado. (Abril de 94)
18) Os juros exorbitantes estão asfixiando o país, e os economistas que vivem deles não acham um caminho para aliviar este peso. Ou não querem? (Abril de 94)
19) Com juros de 31 % ao ano, a dívida interna vai para 500 bilhões de dólares antes do fim do ano 2000. (Abril de 94) Fiz este cálculo para assustar, para provocar alguma mudança que evitasse um desastre deste tamanho. Infelizmente, por uma estranha coincidência, esta foi a média dos juros praticados até agora, e a dívida pública já está em 400 bilhões. Se os juros não baixarem logo, vai além dos 500 bilhões no ano que vem. Sem o dinheiro das privatizações, a realidade estaria ainda pior. Vendo que não conseguia fazer-me ouvir, deixei de escrever sobre economia, mas em 99 não consegui mais ficar quieto, diante das tentativas desastrosas e inúteis de defender o valor irreal do Real com juros ainda maiores e com a queima perigosa das reservas.
20) Não precisa ser doutor em economia para entender que uma firma que oferece 50 % de juros para conseguir algum dinheiro emprestado não consiga atrair capitais. Se conseguir, pior para ela. Quanto mais dinheiro tomar emprestado a este preço, mais atolada ficará. (Out. 98)
21) Não vale a pena sacrificar toda economia do país para manter o valor artificial do real. … Uma coisa é fazer uma desvalorização soberana do alto de 75 bilhões de reservas, único remédio eficaz para equilibrar as contas externas, junto com uma redução drástica dos juros, remédio indispensável para equilibrar as contas internas. Outra coisa é sucumbir a uma desvalorização forçada depois de resistir até não poder mais, um desastre que pode trazer de volta o espantalho da inflação. (Outubro de 98)
22) O Brasil precisa crescer num ritmo de 4 %, no mínimo, só para compensar a automatização e o aumento da população ativa, e muito mais para tirar o atraso. (Dezembro de 98)
23) Agora é difícil sair do atoleiro. A saída passa pela superação do déficit das contas internas, impossível com estes juros. A redução dos juros exige uma política monetária menos medrosa e a superação do déficit comercial, impossível com este câmbio. (Dezembro de 98)
Sei que há um problema com estes textos, e com os artigos que escrevi sobre economia. Quem não estudou economia vai achar a linguagem difícil, e os economistas vão achar que as coisas que escrevi não estão de acordo com os ensinamentos dos seus manuais de economia, quase todos escritos em inglês e traduzidos em economês. Mesmo assim, estou tentando colocar estas idéias à disposição de eventuais leitores interessados.
Termino com outra previsão. Se não houver uma mudança radical na economia do país, o ajuste fiscal com suas consequências no agravamento do desemprego e da recessão não vai impedir o crescimento da dívida pública alimentada por juros que asfixiam a economia e já não conseguem impedir a volta da inflação. Por mais que cortem gastos e cobrem impostos, durante o ano inteiro de 1999 não será possível recuperar o que é gasto em juros apenas neste primeiro trimestre, de janeiro a março.
Jequié, 11 de Março de 1999 Dom Cristiano Krapf, bispo de Jequié
Nova impressão desse texto no dia 18 de Maio de 2013, com mais opiniões pessoais provocantes: Diante de tanta insistência de tantos doutores em ciências econômicos na defesa de tantos juros, sempre me venho perguntando se atrás das razões apontadas não existem outras guardadas no subconsciente, ou mantidas escondidas.
Com certo receio de falar e provocar reações, indico apenas perguntas pequenas: Será que tantos argumentos complicados em favor dos juros absurdos não são movidos também por interesses pessoais e de grupos? Empregados precisam defender seus patrões. Ora, quem é que paga os economistas? Algum pobre? Quem é que recebe centenas de bilhões de juros da dívida pública por ano, dinheiro que deixa de ser investido em educação e saúde, em rodovias e portos e ferrovias? O povão que paga juros também e comida mais cara, e perde serviços importantes com a falta de investimentos? O dinheiro dos juros não cai quase todos nas contas aos donos do capital financeiro que desejam viver de juros? Outros trilhões de juros pagos por todos que precisam de dinheiro emprestado, para onde vão?
Ainda bem que nosso Governo atual de Dilma faz pressão para diminuir os juros, e para sobrar mais dinheiro para investir na infraestrutura do País. Ainda bem que conseguiu fazer passar a nova lei dos portos, vencendo resistências ideológicas de partidos velhos radicais da esquerda contra tudo que tenha cheiro de privatização. www.domcristiano.com + Cristiano, agora aposentado, mas não parado