Quem muito recebeu

agosto 9th, 2010

Muito recebeu você

A quem muito foi dado, muito será pedido. (Lc 12,48)

            Quem de nós poderá dizer que pouco recebeu, se até a vida nos foi dada?   Você que teve o privilégio de nascer no berço de uma família boa, não fique deitado eternamente em berço esplêndido! Se achar que poderia ter nascido num ambiente melhor, não fique perdendo tempo se queixando da falta de sorte!

Muita gente descontente fica reclamando de Deus e do mundo, em vez de fazer da situação atual o ponto de partida para construir um mundo melhor.

            A primeira tarefa é construir a si mesmo. O existencialismo diz que o homem é seu próprio criador.  Essa mentira não deixa de conter uma parcela de verdade.  Você se fez aquilo que é. Do seu ponto de partida andou por caminhos que você escolheu. Contou com apoios, venceu obstáculos, mas foi você que decidiu o roteiro, aceitando e rejeitando palpites e conselhos, aproveitando e perdendo oportunidades até chegar ao lugar que está. Não sabe quanto ainda tem de futuro, mas a escolha continua sua.

            A quem muito foi confiado, muito será exigido. Ninguém de nós vive para cuidar apenas de si mesmo. Na realidade, muitos não sabem nem cuidar de si mesmo. Matam seu tempo com coisas inúteis. Estragam seu corpo com coisas que prejudicam a vida.  Quem não cuida de si mesmo, de quem cuidará?

            A exigência fundamental da moral cristã é muito radical, mas equilibrada:  Amar o próximo como a si mesmo. Jesus não diz que devemos amar o próximo mais que a nós mesmos. Tal heroísmo é coisa para heróis, coisa para situações especiais, arriscar sua vida para salvar a vida do irmão.  De certa maneira também é coisa para quem é chamado para dedicar-se por inteiro ao serviço de Deus e dos irmãos, como fez Jesus que deu sua vida para nossa salvação. O país e o mundo precisam de novos políticos que se ponham por inteiro a serviço do bem comum.

            Numa espiritualidade de desprezo das realidades terrenas surgiram teorias e práticas que desvalorizavam o corpo, chegando ao desprezo de si mesmo. Que futuro tem o namoro de um rapaz que diz para a namorada: Eu não presto, mas eu te amo? Ser humilde é bom, mas pessimismo e humildade fingida não servem para nada.

As palavras auto-estima e amor próprio adquiriram uma conotação negativa. Ora, como é que alguém que não dá valor a si mesmo vai dar valor aos outros? Quem não gosta de si mesmo, de quem gostará? Quem não tem amor próprio, vai ter amor para outros?

Na realidade, amar o próximo como a si mesmo já é um ideal tão elevado que poucos conseguem chegar perto. O primeiro passo para amar alguém é reconhecer o seu valor. Se você acha que não vale nada, como é que sua vida terá valor para outros? Falando nisso, qual é o seu valor?  Você, quanto é que vale? Feche os olhos e pense!

Você é precioso aos olhos de Deus. Tome consciência do seu valor! No entanto, não há razão para ter orgulho. O que é que você tem que não tivesse recebido?  Você é um presente de Deus. Um presente para você. Destinado a tornar-se um presente de Deus para o mundo. Se muito recebeu, tem muito para dar. Está na hora de começar com mais vigor.  Não temos tempo a perder. Não sabemos até quando podemos agir.

Deus espera muito de você. Não perca tempo com lamúrias contra suas condições de vida, nem com queixas contra outros. Você não foi colocado no mundo para ficar reclamando, mas para fazer a sua parte para construir um mundo melhor.

A nós que agora estamos aqui foi dado viver num tempo interessante, num mundo com muita coisa boa a fazer.  As próximas décadas serão decisivas para o futuro da humanidade. Muita coisa depende de nós. De você, jovem qml !

 Os profetas de desgraças apresentam perspectivas sombrias para este século, com dramas crescentes de escassez de recursos naturais, perspectivas de guerras por espaços vitais. Querendo ou não, os jovens de hoje precisam aprender a construir um mundo solidário, onde os mais fortes passam a contentar-se com padrões de vida mais modestos, para que os pobres de hoje e as gerações futuras possam ter o necessário para viver.

Já passou o tempo de protestos genéricos e reclamações estéreis inúteis contra a situação do país, contra a política, contra classes privilegiadas, contra o capitalismo e contra o neoliberalismo. Agora chegou a sua hora, o tempo de você fazer a sua parte. Ou você acha que ainda é hora de desencadear revoluções?

Jesus não quis consertar o mundo na marra, por intervenções do poder divino. Fez questão de confiar a nós a missão de construir um mundo mais fraterno para felicidade de todos.  

Deus deu ao homem a capacidade de progredir na ciência e na tecnologia, e nos confiou a responsabilidade de aplicar o progresso da técnica para o bem de todos. Deixou para cada um de nós a missão de fazer o que podemos para melhorar o nosso pedaço, cada um começando consigo mesmo.  

Jequié, 8 de Agosto de 2010                                                              + Cristiano

Rezar não é para quem não quer nada

julho 27th, 2010

Aprender a Orar para Conscientizar

Jesus nos disse que podemos falar com Deus com a confiança de filhos diante do Pai. Vendo Jesus em oração, os discípulos lhe pediram que os ensinasse a rezar. 

Diante das diferenças entre Lucas e Mateus surge a pergunta: Qual foi o Pai-Nosso que Jesus nos ensinou? Todos os sete pedidos da versão de Mateus podem ser de Jesus. Algumas variantes de cópias antigas do texto mais curto de Lucas têm mais um pedido: Vosso Espírito Santo venha sobre nós.

Diferenças pequenas entre textos usados pelo povo cristão surgem da dificuldade de traduzir textos antigos. Muita tradução é traição. No Brasil temos diferenças entre Teu e Vosso. Não faz sentido brigar com outras igrejas por causa de tradições diferentes.

No Brasil temos protestantes que criticam nossa maneira de rezar para dizer que estamos na Igreja errada. O mais importante é entender e assumir o que estamos pedindo ao rezar a oração que o próprio Jesus nos ensinou.

Não podemos fazer esses pedidos a Deus e depois ficar de braços cruzados, esperando que as coisas aconteçam.

  • Para que pedir Santificado seja o vosso nome, e usar o nome de Deus em vão?
  • Não adianta pedir Seja feita a vossa vontade, e depois fazer o contrário.
  • Como pedir pelo Reino de Deus, sem trabalhar para construir o seu Reino aqui? 
  • Para que pedir a Deus o pão nosso de cada dia, de barriga cheia, e nada fazer para que todos possam ganhar o seu pão com seu trabalho?
  • Ao pedido de perdão, Jesus anexou esta condição: assim como nós perdoamos.

O Pai-Nosso é oração de conscientização. Não deve ser rezado da boca para fora.    Vida cristã não combina com mediocridade. Não é para egoísta hedonista consumista comodista que procura vantagem em tudo, até na religião.

         Falando numa missão popular, fui surpreendido por um questionamento: Padre, o Pai-Nosso está errado. Se nós não sabemos perdoar, como é que vamos pedir a Deus que nos perdoe assim como nós perdoamos?

          O que está errado não é o Pai Nosso, nem a advertência que Jesus acrescentou ao pedido de perdão. Prevendo objeções, Jesus mesmo fez questão de insistir com sua própria explicação: Pois, se perdoardes … , também o vosso Pai celeste vos perdoará, mas, se não perdoardes … , o vosso Pai também não vos perdoará.

 Jesus conhece nossa natureza. Ele sabe que perdoar é coisa difícil para nós. Por isso insiste que devemos aprender a perdoar.  Incomodado, Pedro perguntou: Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes

Pelo jeito de perguntar, Pedro achava que sete vezes seria um exagero. Mas Jesus respondeu: Não te digo até sete, mas até setenta e sete vezes.  (Variante: até setenta vezes sete. Mt 18,22)

          Na crise de valores de hoje, o mundo põe a vingança acima do perdão. Perdão agora é sinal de fraqueza. O forte não leva desaforo para casa. Na realidade, o perdão faz parte do amor, mas o egoísmo prevalece tanto que a paz não vence as desavenças. Nem na família. Muitos perguntam até que ponto devem perdoar. Até a traição?

          Fico preocupado diante de separações até de casais de vivência cristã, até de homens e mulheres que eram atuantes em movimentos. Para onde vai a sociedade? Diante do comportamento de tantos jovens de hoje, como será o futuro da família? Tanto egoísmo vencendo o amor, até num país onde quase todos se dizem cristãos?

          Por que Jesus insiste tanto na necessidade do perdão? Porque o fundamento da vida  cristã é o amor.  O amor precisa todo dia vencer o egoísmo.  Sem o perdão, o amor não sobrevive às dificuldades naturais da convivência. Jesus podia dizer também: Perdoai-vos uns aos outros assim como eu vos perdoei. Foi para nos trazer o perdão dos pecados que Ele veio participar das condições da existência humana. Pendurado na cruz, ainda fez um último pedido ao Pai:  Pai, perdoai-lhes: não sabem o que fazem.  

        O diácono Estêvão, depois de tentar em vão convencer seus perseguidores num longo sermão, pediu por eles: Senhor, não os condenes por este pecado.

          Poucos são colocados em situações tão extremas, mas todo cristão é convocado para carregar a cruz que surge na sua vida. Toda vida humana tem suas dificuldades, e toda convivência tem seus atritos. Às vezes é preciso carregar o peso do outro.

           Sem a disposição ao perdão, de pequenos atritos surgem grandes conflitos. Em casa, na rua, na cidade, no país e no mundo. Para vocações especiais, outra palavra de Paulo: Carrego na minha carne o que falta na cruz de Cristo.

            São Lucas não repete a insistência de Jesus na necessidade de aprender a perdoar para obter o perdão de Deus, mas apresenta uma parábola sobre a importância de perseverar na oração, com a conclusão: Se vós, que não sois tão bons, sabeis dar coisas boas aos filhos que pedem, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem.   

Rezar é para quem quer algo mais.

Jequié, 25 de Julho de 2010                        + Cristiano Krapf

UM PLEBISCITO PARA DIVIDIR FAZENDAS?

julho 17th, 2010

Uma campanha de embolar o campo na luta contra propriedades rurais.

Diante da pobreza de milhões de brasileiros nesta terra tão rica em recursos naturais, até pessoas bem intencionadas se deixam instrumentalizar por adeptos de uma ideologia anticapitalista e antineoliberal que ainda têm a ilusão de construir uma sociedade mais justa pelo atalho da luta de classes. 

No último dia da Reunião dos Bispos em Brasília tivemos um tempinho para sugerir emendas para um texto de 55 páginas sobre a Questão Agrária.  O Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, FNRA, quer envolver a Igreja na luta por uma lei arbitrária para diminuir as fazendas.

 Faz muito tempo que tal projeto é tramado nos bastidores de setores que desejam radicalizar a reforma agrária. Falei que seria melhor insistir na exigência da função social de toda propriedade, em vez de perturbar o trabalho de pessoas que fazem a terra produzir. Tentei oferecer um texto crítico que fiz às pressas com argumentos razoáveis contra tentativas de atacar e atrasar o desenvolvimento de uma agricultura moderna num país com a vocação de ser o celeiro do mundo neste século de perspectivas ameaçadoras de conflitos crescentes por alimento, por energia e por água.

Não conseguindo distribuir a todos o meu texto sobre o tal plebiscito, o mandei aos colegas pela internet, junto com outro mais elaborado sobre a Questão Agrária para Bispos, que ainda está guardado no meu Blog, porque se refere à primeira versão do texto da CNBB, do qual ainda não vi a versão final.

Quando questionei o envolvimento oficial da CNBB numa campanha contra grandes propriedades rurais que só servirá para agitar ainda mais o ambiente rural, recebi a resposta que não seria publicado um documento oficial da CNBB, mas apenas um texto para estudo. No entanto, agora já começou a campanha com coleta de assinaturas e mobilização para o grito dos excluídos. Quem não participar, será acusado de estar do lado dos ricos contra os pobres.

Quando um bispo, ou uma pastoral da CNBB, assume posições muito definidas, colegas não gostam de apresentar opiniões divergentes. Foi assim quando alguns queriam mobilizar a Igreja contra projetos de transposição do São Francisco e contra hidroelétricas na Amazônia. O mesmo acontece agora com a Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade da Terra.

Não vejo por que todos os bispos devam marchar unidos contra projetos complicados que dividem as opiniões dos envolvidos e dos entendidos. Muitos deles fabricam argumentos para justificar suas posições, em vez de escolher seus objetivos de acordo com a verdade objetiva da razão.

 Precisamos cuidar da unidade na fé. Em questões de política econômica, não cabe à CNBB impor seus pontos de vista a ninguém. As opiniões de cada bispo valem de acordo com o peso dos seus conhecimentos manifestados nos seus argumentos. Viva a liberdade!

A situação fica mais complicada quando uma proposta já assumida por pastorais foi apresentada por uma comissão nomeada pela presidência e passou pela maioria. No entanto, mesmo assim, o povo tem o direito de ouvir também o outro lado.

Não quero impor as minhas opiniões. Quero apenas oferecer meus argumentos aos interessados no assunto, e deixar claro que nenhum católico é obrigado a participar de uma campanha promovida por uma entidade qualquer, mesmo que conte com o apoio da CNBB.    A Igreja não pode exigir que todos tenham a mesma opinião sobre problemas de política econômica, nem que todo católico venha embarcar na canoa furada desse “plebiscito”. 

Na proposta que surgiu na nossa Assembléia faltou definir coisas importantes:

1)     Qual deve ser o tamanho limite das propriedades?

2)     A desapropriação será com indenização ou por confisco sumário?

3)    Quem receberá a terra pronta e as benfeitorias de presente?          O invasor que chegar primeiro?    Os amigos dos donos do poder?

Agora, a cartilha do FNRA já diz qual deve ser o Limite da Propriedade: 35 módulos fiscais. A cartilha explica que um módulo tem entre cinco e 110 hectares. O INCRA diz que regiões boas para culturas permanentes em São Paulo têm um módulo de dez hectares. Assim, propriedades acima de 350 hectares serão divididas. Quer um pedaço?

Com leis que protegem fazendas produtivas já surgem invasões de áreas plantadas. Na Bahia, invasores de terras alheias cortaram pés de eucalipto com o argumento que pobre não come madeira. Alguém imagina que grandes plantações de laranja, café, cana, soja, eucalipto, seriam entregues sem resistência ao primeiro invasor que chegar? Ou será que ainda existem movimentos que sonham com revoluções?

No sertão difícil, os módulos são bem maiores, mas o pessoal não dorme no ponto. Vão procurar as regiões melhores. Já existem assentamentos que produzem pouco, mas que receberam casas perto de cidades. Outros querem lugares de futuro turístico. Assentamentos distantes só sobrevivem enquanto continuam recebendo ajuda dos pagadores de imposto.

Acho que a lei para limitar o tamanho das fazendas não vai vingar. Vingando ou não, a campanha vai provocar confusão e aumentar os conflitos. 

Resumindo, a proposta do FNRA é esta: Confiscar as grandes fazendas:

Áreas acima de 35 módulos seriam automaticamente incorporadas ao patrimônio público e destinadas à reforma agrária.  Em vez de dividir fazendas, por que não dividir os milhões dos milionários?  Para começar, tirar o ICMS da Cesta Básica e diminuir os juros. Só com juros da sua dívida o Governo transfere aos ricos dez vezes mais que tudo que transfere aos pobres pelo  Bolsa  Família.

Jequié, 18 de Julho de 2010                 + Cristiano Krapf

Enganos de Direitos Humanos

julho 4th, 2010

                Alguns colocam entre os direitos humanos o direito à saúde.  Acontece que doenças não respeitam tal direito. O Estado e a Sociedade precisam garantir o direito a serviços de saúde, um bom atendimento preventivo e curativo. Primeiro, porém, com ou sem o apoio de outros, todos precisam caprichar para evitar vícios e imprudências que possam colocar em perigo sua própria saúde.   

Agora surgiu no Congresso uma proposta estranha que pretende garantir aos brasileiros o direito à busca da felicidade. Ora, tal direito já é de todos, uma coisa que ninguém pode impedir. A felicidade é a única coisa que todos procuram. Ou existe alguém que deseja ser infeliz?

O problema é que muitos não encontram a felicidade que procuram. Por que será? Ora, é muito fácil saber por que. Não encontram a felicidade porque a procuram onde não se encontra. O problema é saber onde procurar, e como procurar. O egoísta que anda procurando momentos felizes só para si não vai encontrar a felicidade.

Uma felicidade construida sobre a infelicidade de outros não resiste ao tempo. Mesmo sendo egoísta por natureza, o ser humano não será feliz se não aprender a amar. Dizendo a mesma coisa na perspectiva da comunidade: Sabendo que para nossa felicidade é importante sentir-nos amados, precisamos aprender a amar os outros como queremos ser amados. Para que todos sejam amados, é preciso que todos procurem amar.

As proclamações de direitos humanos precisam deixar bem claro que todos os direitos têm seus limites nos direitos dos outros. Temos o direito à busca da felicidade, sim, mas apenas na medida em que não atrapalhamos a felicidade dos outros.

Em muitos filmes e novelas, a felicidade é procurada fora da família. Criam um contraste entre a monotonia de um casamento e os atrativos de outras aventuras. Será que na vida real também é assim? Pílulas e camisinhas prometem prazeres livres de consequências não desejadas, momentos felizes sem preocupação com o futuro, mas tais conquistas fáceis atrapalham a construção de uma grande história de amor.

A procura despreocupada de momentos felizes pode preparar um futuro infeliz. O exemplo mais evidente é a droga. Você conhece algum viciado feliz? Basta abrir os olhos para ver a infelicidade dos viciados em drogas. Quanto aos viciados em crack, quase não se pode ver adultos nessa dependência infeliz, porque poucos chegam à idade adulta. O diabo tem um aliado dos traficantes: O medo do adolescente de ser chamado de careta. O mesmo medo de críticas de colegas enfraquece a resistência contra tentações e seduções que procuram atrair o jovem cada vez mais cedo para uma vida de promiscuidade. Sexo sem amor pode dar prazer, mas não é caminho para felicidade.

Outra façanha do diabo é conseguir que muitos jovens considerem a religião como coisa de careta e a Igreja como inimiga da festa da vida. Falsos profetas estão caindo no outro extremo: Prometem uma religião de prosperidade que livre seus seguidores do sofrimento de doenças e de todos os problemas.

 Jesus não veio tirar seus seguidores das condições naturais da existência terrena. Pelo contrário, quem quiser ser seu discípulo precisa também carregar sua cruz. Mesmo no plano natural, a felicidade não se deixa encontrar por pessoas que ficam buscando demais. Ela é presente de surpresa para quem procura realizar a sua missão e passar pela vida fazendo o bem. A vida nos é dada para fazer coisas boas. Não podemos ser apenas consumidores de felicidade. Precisamos produzir felicidade. O ideal do cristão vai muito além de leis e mandamentos que proíbem o mal.

A felicidade do cristão tem sua raiz na fé. É por isso que se diz que um cristão triste é um triste cristão. Nietzsche, o alemão “filósofo do niilismo” e da “inversão de todos os valores”, filho de pastor protestante, diz assim: Mais redimidos deviam apresentar-se os cristãos, para que eu pudesse acreditar no Salvador deles.

Muitos cristãos ainda não percebem que os mandamentos de Deus não estão aí para cercear a nossa alegria de viver, mas para favorecer uma felicidade maior.  Deus nos deu olhos para ver a luz, mas muitos preferem enxergar apenas as trevas.

Muitos vivem procurando os pequenos prazeres deste mundo porque não têm a felicidade de sentir o amor de Deus na sua vida. Aí está o segredo existencial da vocação e da vida do missionário: Não se baseia numa obrigação, mas na vontade de partilhar com outros a felicidade da fé. O amor de Deus quer chegar a todos por meio do amor dos seguidores de Jesus.

Apesar do comportamento errado de muitos cristãos, e até de padres, a Igreja deu a sua contribuição fundamental para o reconhecimento universal dos direitos humanos. Só que neste mundo secularizado está surgindo uma tremenda confusão. Novas leis pretendem ampliar os direitos de uns às custas dos direitos de outros. Em nome dos direitos humanos, em nome dos direitos da mulher, estão querendo dar à mulher o direito de passar por cima do direito mais elementar do próprio filho, do direito à vida.   

Tal confusão tem sua origem na desordem familiar, no desprezo pelo sexto mandamento: O mundo de hoje não quer reconhecer que o adultério é pecado que precisa ser evitado mesmo quando não é proibido pela lei civil. Escândalos causados por padres e explorados por uma propaganda cheia de protestos indignados dos inimigos deixam ver que mesmo esses ainda reconhecem no seu íntimo que existem pecados no campo do sexo. Procuram minar a autoridade do Papa que incomoda com sua firmeza moral, atribuindo a ele o poder de controlar a vida pessoal de cada um dos 400000 padres espalhados pelo mundo inteiro.

Tais protestos têm um lado bom: Vão impedir a descriminalização da pedofilia que já foi tentada em alguns países. O abuso sexual de menores é um pecado muito grave, mas o aborto também não é pecado menor. Mesmo assim, muitos querem descriminalizar o aborto. Querem leis que permitam tirar a vida de crianças no ventre de sua mãe que devia ser o lugar mais seguro do mundo. Mesmo países onde quase todos se dizem cristãos admitem o aborto. Pior, nem as leis contra o crime do aborto conseguem evitar a sua prática. Vivemos no mundo dominado por uma confusão de valores imaginada por Nietzsche faz mais de um século.

Jequié, 4 de Junho de 2010              + Cristiano Krapf

Sementes de Agitação

junho 16th, 2010

Bispos na Questão Agrária

Opiniões pessoais de um bispo que pensa com a própria cabeça

Na enchente crescente de papéis nas Assembléias da CNBB, este ano veio um texto de 55 páginas recheadas sobre Igreja e Questão Agrária no Início do Século XXI, com encaminhamentos para um Documento de Estudo.  

            Estranhei a insistência do texto na participação da Igreja numa mobilização organizada por setores que ainda querem resolver os problemas do campo pela luta de classes, do pobre contra o rico, do trabalhador rural contra o fazendeiro. Zelotas anticapitalistas querem instrumentalizar a força da Igreja para conseguir uma lei contra o tamanho das propriedades rurais.

A primeira versão do texto me parece vir de especialistas esquerdistas contra o crescimento da agricultura moderna. Forjam um falso dilema entre propriedade familiar e fazenda maior, entre consumo interno e exportação. Ainda me lembro de protestos contra projetos de fruticultura irrigada na Bahia. Diziam que o país devia produzir para o povo comer, em vez de produzir para outros. Será que algum cego ainda não quer ver o progresso trazido pela exportação de frutas?

Os mesmos setores ainda são contra o “agronegócio de exportação”, contra obras de infraestrutura: ferrovias, portos, aeroportos, contra barragens para usinas e irrigação. Tempos atrás eram contra Itaipu e Tucuruí, até contra Sobradinho.

 Hoje são contra novas hidroelétricas e contra o aproveitamento dos recursos naturais da Amazônia. Preferem as usinas poluentes movidas a carvão e óleo, ou os atrasos da falta de energia? Profetas do atraso não vão melhorar a vida do pobre. Facões e foices e enxadas já perderam a luta contra o trator.

Tivemos uma rápida reunião em grupos para dar sugestões, mas o tempo foi curto para perder tempo com pequenas emendas. Seriam remendos novos em panos novos.  Pedaços de cor diferente num tecido de uma só cor. Já no apagar das luzes ainda fiz um questionamento sobre a linha geral do estudo.

Depois deixei à disposição dos interessados uma colaboração escrita, na mesa de materiais disponíveis na sala de entrada, junto com um texto sobre meu projeto de um novo método de irrigação para plantar florestas no sertão.

Mas o texto crítico sumiu de repente. Será que o papel foi sequestrado para impedir que outros pudessem ver? Prefiro pensar que alguém levou para distribuir.

Teimoso como sou, venho colocar o texto à disposição dos companheiros pela internet, junto com essa reflexão e algumas sugestões de emendas. Uma só crítica pode ser mais útil que muitos elogios. Concordo que a CNBB continue a publicar textos fora da nossa especialidade, mas proponho que nossos documentos, os azuis  e mesmo os verdes, não contenham afirmações de fácil contestação. Seriam usadas pelos adversários para desqualificar a nossa voz.

Diante de críticas genéricas aos poderes públicos nas entrelinhas do texto proposto, não posso deixar de louvar o esforço do governo para dar um socorro de emergência a muitos pobres, pelo bolsa família e pelo programa de luz para todos. Para o futuro, porém, o povo precisa do apoio de uma infraestrutura melhor e de um crescimento maior para poder ganhar o seu pão com seu próprio esforço, em vez de depender eternamente de esmolas. Um problema: nossos economistas têm medo do crescimento. Preferem pisar no freio. Outro problema: O aparelho inchado do governo gasta grande parte dos impostos com funcionários e com os juros da dívida pública interna que continua crescendo num ritmo perigoso.

Uma proposta com críticas pesadas contra poderosos deve ser feita com muito cuidado. Qualquer afirmação inconsistente vai enfraquecer o conjunto e pode servir de pretexto para rejeitar o trabalho todo e a nossa proposta de construir uma sociedade mais justa e solidária. Para o lado da esquerda militante tenho outra proposta: Formar bons capitalistas neoliberais para construir um capitalismo melhor.

             Fizeram uma análise crítica da conjuntura agrária brasileira, de um ponto de vista anticapitalista, com reflexões mais filosóficas que práticas.  Também quero filosofar, diante de um texto que vê no capitalismo um inimigo a combater, o maior culpado por todos os males, a barreira no caminho para um mundo menos injusto.

            Acontece que não são as estruturas que formam pessoas. São pessoas que fazem estruturas.  Revoluções derrubam poderosos e fazem outros tomar o poder. A especialidade da Igreja é formar pessoas capazes de construir estruturas melhores.

Zelotas  judeus queriam derrubar o poder opressor dos romanos.  Não sabemos qual seria o caminho da história se eles tivessem derrotado o império. O que sabemos é que só conseguiram a destruição de Jerusalém pelo exército vingador do imperador.   Jesus indicou um caminho diferente para os cristãos, o caminho mais longo que passa pela conversão das pessoas.

Também não sabemos como estaria o Brasil agora sem a “revolução” dos militares. Não sabemos como seria nossa situação se os revolucionários da esquerda tivessem derrotado o regime militar. Melhor ou pior?

Também não sabemos para onde nos pode levar um agravamento do enfrentamento entre direita e esquerda, provocado por um aumento explosivo de conflitos iniciados por uma onda de invasões toleradas para confiscar propriedades na marra até um ponto sem retorno na lei.

Para que serve a gritaria contra o capitalismo sem a perspectiva realista de uma alternativa melhor?  Bons capitalistas podem construir um capitalismo bom. Alguém dirá que o comunismo também seria bom com bons comunistas. Concordo. Uma experiência nesse sentido foi o “comunismo” dos primeiros cristãos, apontado como exemplo pela teologia da libertação.  

Por que não deu certo, se foi tão bom? Por que foi que Paulo precisou fazer coletas para socorrer aquela comunidade? Talvez por causa de egoístas preguiçosos e aproveitadores que deixavam de trabalhar. Será que até os mais generosos que tinham colocado seus bens em comum foram perdendo sua dedicação ao serviço desinteressado? Coisa parecida pode acontecer com padres que começaram cheios de entusiasmo pelo Reino de Deus, mas vão perdendo seu primeiro fervor.

ALGUMAS TESES para pensar

A missão da Igreja é formar pessoas que conheçam Jesus e vivam de acordo com seus ensinamentos, sem querer enquadrar a todos nas estruturas deste ou daquele sistema econômico e político.

·         Com capitalistas altruístas podemos ter um capitalismo bom. Por outro lado, com cristãos egoístas até o cristianismo se torna ruim.

·         Neoliberais solidários podem melhorar a sociedade. Maus católicos podem causar estragos na Igreja e no mundo.

·         Seria um desastre condenar o espírito de competição em nome do ideal cristão de fraternidade. Muitos países progrediram com a valorização da competição no seu sistema escolar. Nem o futebol funciona sem espírito de competição.  Sem a livre concorrência e a competição entre pessoas e grupos competentes ainda estaríamos na idade da pedra, ou a caminho do Estado totalitário. 

·         Só teremos um Brasil melhor com brasileiros melhores.

Análise de alguns números do texto sobre a questão agrária.

            As primeiras páginas fazem um histórico de textos sobre problemas agrários publicados com apoio da CNBB. O pior da história está no número 37, que fala da necessidade de se estabelecer um limite para a propriedade da terra. Tal proposta já vinha circulando em círculos da esquerda radical.

 Até o texto base da CF 2010 convocou as Igrejas a participar num “Plebiscito Popular” de Campanha de Assinaturas no Grito dos Excluidos.  Meus comentários sobre as ameaças latentes de tentativas de confisco de terras produtivas estão no texto anexo sobre mais um “Plebiscito” que tentei distribuir aos companheiros na Assembléia da CNBB.

Os números 39 a 49 têm um olhar pessimista sobre o mundo. Querendo ou não, estamos na cultura tecnocom, de tecnologia e comunicação. A situação dos pobres estaria muito pior sem o progresso da tecnologia. Mesmo com toda ciência vai ser difícil fazer a terra sustentar a vida de mais alguns bilhões ainda neste século.

Alguém pretende voltar ao mundo tribal, onde o espaço vital precisava ser conquistado pela eliminação de outras tribos? Tal situação pode repetir-se em escala mundial, se não aprendemos a renunciar ao consumismo egoísta para cuidar de um desenvolvimento sustentável. Quantos habitantes cabiam no Brasil daquele tempo sem volta que ainda desperta nostalgias românticas?

Para que perder tempo com queixas contra a globalização irreversível e contra o desemprego causado por máquinas? Melhor insistir na necessidade de mudar as prioridades do ensino. Multiplicar cursos técnicos, em vez de continuar a formar excedentes de doutores em cursos acadêmicos e deixar tantos jovens sem preparo prático para a vida real.  Milhões de brasileiros não encontram emprego por falta de formação qualificada para o mundo atual e para o futuro.

            Os números 50 a 59 constatam problemas para os quais já posso dar a minha contribuição pessoal com o a divulgação de um novo método de irrigação para melhorar a vida do homem do campo. Já tenho uma pequena floresta plantada sem desperdício de água. Com duas placas de energia solar para bombear um pouco de água estou vencendo a terceira seca. Explicações no Blog www.domcristiano.com.br, onde tem um filminho para quem quer ver para crer. Mas vejo agora que o homem da roça não está disposto a experimentar novidades que demoram para dar resultado.

            60-62 Comparações históricas capengas. Os judeus do AT conquistaram terras da Palestina expulsando povos indígenas. Serve de exemplo?

130 … Estranhas afirmações sobre uma opção primária exportadora. Cada país exporta o que pode.  É por preconceitos contra o agronegócio de exportação que o Brasil ainda não descobriu para valer a sua vocação de ser o celeiro do mundo futuro.

Por outro lado, por falta de investimentos em infraestrutura e industrialização,  e pelo valor irreal do real, a nossa indústria tem dificuldade de competir no mercado global, e até no mercado interno. Importações baratas são favorecidas em nome do combate contra o bicho-papão da inflação. Os mesmos que criticam a exportação de produtos primários são contra a construção de novas siderúrgicas que acrescentam valor aos minérios. Acham melhor deixar os minérios enterrados para sempre.

O lucro fácil dos juros seguros sobre a dívida pública interna desvia recursos que podiam ser investidos no campo e na indústria. Estrangeiros tiram proveito da situação e compram terras, fábricas, hotéis, supermercados, ações. Não adianta criticar o capital financeiro nacional e internacional. Precisamos direcionar melhor os incentivos para apoiar a criação de empregos. Aliviar o peso da tributação do trabalho e acabar com impostos que encarecem produtos de primeira necessidade.

 Será que os pobres que se queixam dos ricos, no lugar deles fariam melhor?  A miséria de muitos tem sua causa também nas drogas e na desordem familiar, além das causas estruturais da falta de justiça social e de oportunidades para todos.

Muitos “capitalistas” que criticamos são católicos que nossas pregações não conseguiram formar melhor. Muitos políticos corruptos são de igrejas cristãs. Se o futuro se apresenta escuro, a responsabilidade é nossa também, se não conseguimos tornar os jovens de hoje resistentes às tentações das drogas e da promiscuidade, se não conseguimos ajudá-los a ter interesses que ultrapassem o egoísmo da procura imediata dos pequenos prazeres do consumismo.

Quanto às drogas, as igrejas fazem tentativas para recuperar viciados, mas deviam fazer mais para prevenir contra os caminhos de perdição que estragam o futuro de tantos jovens, começando na bebida ou na maconha, ou logo no crack.   Será que o atalho do confronto que alguns apresentam como receita para construir  um mundo mais justo daria resultados melhores? 

            A maioria dos bispos não tem conhecimentos técnicos em economia rural. Também não sou doutor em economia nem agronomia. Por outro lado, um simples bispo do interior da Bahia pode dar seus palpites no assunto, mas a CNBB não pode endossar a propaganda de velhos chavões de uma ideologia sem nome, nem de um bispo contra obras que lhe parecem prejudiciais para alguns. Obras importantes para o bem comum do país não podem ser sacrificadas aos interesses imediatos de poucos.

Na hora da filosofia voltar à escola devemos contribuir para não ser apenas história de teorias. Para que serve uma filosofia que tem medo da metafísica, da procura das últimas causas das coisas, um pensar que foge da questão da verdade?       

            119-129  Tenho certeza que desapropriar para fins de reforma agrária terras ociosas é muito melhor que tomar terras produtivas. Reconheço que não é fácil medir a produtividade de maneira justa.

            No contexto da reforma agrária foi inventada uma expressão esquisita: latifúndio por produção. Neste sertão, onde teimosos que ainda plantam sem saber se vão colher, quase todas as fazendas podem ser desapropriadas como latifúndios por produção. Falta quem queira um pedaço para plantar. O êxodo rural aqui não é culpa do agronegócio, nem do latifúndio. Talvez do clima.

Numa região de chuvas escassas, nem o MST consegue arrebanhar pessoas interessadas em ganhar um pedaço de terra. Só se for para um assentamento à beira de um rio, ou na proximidade de uma cidade, com a doação de uma casa com luz e água na porta, e mais apoio do Governo com dinheiro de todos os outros que pagam impostos pesados sobre tudo que produzem e consomem.

A saída da miséria de cada pessoa depende dela mesma. Cabe aos outros e ao Governo colaborar na criação de oportunidades para todos poderem ganhar o seu sustento com seu próprio esforço. Quem não quiser trabalhar, que morra de fome.   Em certas regiões, trabalhadores estão melhor que pequenos proprietários. Muitos já perderam sua terra. Talvez até um número maior que o número de assentados.

O pobre que desvia dinheiro para bebidas e outras drogas, e para mulheres, nunca vai melhorar. Quanto às mães abandonadas pelo “marido” e aos órfãos de pai vivo, como é que vão sair da miséria?   A missão da Igreja é contribuir para formar pobres e ricos para a responsabilidade pessoal e comunitária no amor ao próximo.   Se não conseguimos isso, não adianta fugir pelo desvio do confronto, da luta contra o “sistema” e contra os ricos.

145 … Não quero entrar nos pormenores de uma análise da situação que procura seus argumentos numa parábola (???) da criação (147), interpretada para encaixar na proposta do texto. Tem muitas afirmações bonitas demais diante da feiúra do mundo real. No sentido imediato da posse dos bens terrenos, onde está a vitória da justiça divina contra os poderosos deste mundo, no passado e no presente?

 Quem quiser argumentar com o AT não pode ignorar a expulsão de povos indígenas pelo invasor judeu. Quanto aos problemas do mundo atual, Deus nos entregou a terra para tomar conta, limitando suas intervenções à obra invisível da graça nas pessoas de boa vontade. Enquanto falsos milagreiros proliferam, milagres verdadeiros ficam mais difíceis.

No auge da “teologia” da libertação, que tem sua própria chave de leitura para a escritura e para a realidade, passei a desconfiar da doutrinação da esquerda quando um representante da pastoral da juventude veio ensinar aos jovens da Catedral que todo rico era ladrão ou filho de ladrão. Na realidade, muitos têm mais que outros porque trabalhavam mais e gastavam menos, eles ou seus pais.

Economias comunistas fracassaram por falta do incentivo da possibilidade de ganhar mais trabalhando mais. A China começou a progredir quando voltou a respeitar o direito de propriedade para os trabalhadores melhores. Coisa de capitalismo.

223 … Teorias bonitas sobre formas alternativas de organização da vida social, cooperativas, associações. Só falta quem consiga           formar mais pessoas que possam realizar coisas tão boas.

254, 3e5  A proposta curta e grossa do longo texto para estudo da CNBB me parece esta: Conseguir mais terras para acelerar a reforma agrária através de desapropriações de propriedades acima de um tamanho que falta definir. Insisto na minha advertência contra o envolvimento da CNBB na luta por leis radicais que só podem contribuir para aumentar conflitos perigosos para o futuro do país inteiro.

255 …  As conclusões têm coisas boas, mas continuam insistindo nos falsos dilemas entre agricultura familiar e agronegócio, entre exportação e atendimento da demanda interna, entre direito de propriedade e melhoras para trabalhadores, e na fantasia genérica de modelos alternativos e nova ética de organização da produção. Nova ética só funciona com pessoas novas, coisa que não se consegue no grito.

Jequié, 25 de Maio de 2010                                             

 + Cristiano Krapf

Deixem o Campo produzir em paz

junho 3rd, 2010

Diante de uma proposta que procura envolver a Igreja na luta contra empresas rurais, não aguentei ficar calado no meu cantinho. Na hora fiz um texto ligeiro para os colegas da CNBB, e em casa elaborei argumentos mais contundentes que enviei aos bispos.  Vendo que certos setores já estão mobilizando a pressão popular por uma lei contra o tamanho das propriedades rurais, venho colocar os dois textos à disposição dos interessados. Hoje o primeiro. Na semana que vem o segundo, para quem deseja aprofundar-se na questão agrária.

 

Mais um “Plebiscito”???

Ouvi rumores sobre uma nova campanha de assinaturas falsamente chamada de plebiscito, profanando um nome importante na democracia.

Setores da esquerda anticapitalista querem ganhar o apoio da Igreja para conseguir uma lei que venha limitar o tamanho de propriedades rurais, mesmo que produzam alimentos para o povo, empregos para trabalhadores, e dinheiro para o país poder equilibrar as contas que de novo ficaram deficitárias por causa do valor irreal do Real.

Qual será o resultado de tal Campanha?

A)   Na melhor das hipóteses, esse “Plebiscito” não vai dar resultado nenhum. Será apenas mais um tempo perdido com o trabalho de muitas pessoas de boa vontade com propaganda e coleta de assinaturas.

B)   Na hipótese pior de se conseguir uma lei que limite o tamanho de fazendas, o resultado será o agravamento de conflitos no campo, especialmente se o PT perder as eleições deste ano.

 

Ainda não consegui descobrir dois pormenores importantes da proposta de tal “plebiscito”:

1)    Qual será o limite do tamanho das propriedades?

2)    Será para pagar indenizações aos proprietários ou confiscar as terras?

3)    Se querem indenizar, quem é que vai pagar? Se for o Governo, de onde vai tirar os recursos? Dos pagadores de impostos, entre eles os pobres que pagam ICMS sobre tudo que compram?

4)    Quem receberá as terras? Invasores? Companheiros de partido? Ou simplesmente os primeiros na fila do MST, etc?

5)    Por que transferir dinheiro do povo para dar aos fazendeiros mais ricos, e para presentear com terra outros pobres que tiveram a esperteza de se meter na fila dos sem-terra?

6)    Se querem confiscar as terras, é para cavar uma brecha no direito à propriedade?

7)    Por que não limitar também as propriedades urbanas, o tamanho de prédios e fábricas, e o dinheiro dos ricos nos bancos?

8)     Por que não limitar também os milhões dos milionários cada vez mais numerosos neste país que tem um governo que vem da esquerda?

9)    Por que não limitar o tamanho dos juros sobre a dívida pública interna que transferem mais de cem bilhões por ano para os donos do capital?

 

Concluindo, em vez de criar uma lei pior, é muito melhor fazer cumprir a lei atual que exige que toda propriedade cumpra sua função social.

Por isso proponho:

a)    Que textos oficiais da CNBB não contenham nenhum apoio à coleta de assinaturas para uma lei que venha impor limites arbitrários ao tamanho de propriedades rurais.

b)    Que nenhum documento oficial da CNBB venha oferecer apoio aos invasores de propriedades alheias.

c)    Que tenhamos todo cuidado para não dar apoio a qualquer entidade que ainda sonha com alternativas ao capitalismo pelo atalho da luta de classes.

d)    Que não façamos nada que possa contribuir para criar no país uma situação parecida com aquela que surgiu no início de 1964.

 

No tempo de escolher o meu caminho procurei seguir o conselho de Paulo: Examinai tudo, guardai o que for bom. Além de ouvir pregações de pastores variados, visitei também uma célula do partido comunista em Paris. Lá ensinavam que a Igreja perdeu seu tempo com tantos séculos de pregação sobre o amor ao próximo, e que o comunismo tinha uma receita muito melhor para uma sociedade menos injusta: Mobilizar os pobres contra os ricos.

Naquele tempo, o caminho da revolução ainda podia parecer um atalho mais eficaz para criar um mundo novo. Ainda bem que eu já tinha espírito crítico.

Para impedir que a opção pelos pobres fosse trocada por uma opção contra os ricos, Puebla colocou um acréscimo: Opção preferencial pelos pobres. Não é combatendo os ricos que se melhora a vida dos pobres, pelo menos no Brasil. 

Brasília, 09 de Maio de 2010                              + Cristiano Krapf, Bispo de Jequié

Sertão tem futuro

maio 25th, 2010

Faz tempo que não acho tempo para meu Blog. Diante da demora de achar pessoas dispostas a experimentar o meu método de irrigação, começo a entender que o homem da roça não quer novidades que demorem anos para dar resultado. Preciso conseguir o apoio de entidades que existem para cuidar da agricultura. Na Assembléia dos Bispos em Brasília pensei no assunto.

                                                                      

Fazer o sertão florir.    Brasília, 11/05/2010

Eu tenho um sonho. Um sonho do tamanho da floresta amazônica.

Na minha primeira viagem pela Rio-Bahia na região de Jequié fiquei impressionado com tanta terra ociosa na beira da estrada. Passei a falar mal dos fazendeiros que não plantam e não deixam os outros plantar. Depois pensei que seria melhor fazer alguma coisa, em vez de criticar os que não fazem nada. Read the rest of this entry »

Ver para crer

abril 13th, 2010

Querem ver para crer

Tendo ressuscitado na madrugada do terceiro dia da semana, Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena. Ela foi anunciá-lo aos discípulos. 

Eles, ouvindo que ele estava vivo e que fora visto por ela, não creram.

Jesus se manifestou a dois discípulos a caminho do campo que foram dizer aos outros. Mas esses ainda não creram.

            Finalmente, ele se manifestou aos Onze, e censurou-lhes a incredulidade, porque não haviam dado crédito aos que o tinham visto ressuscitado.

Não foi apenas Tomé que queria ver para crer.

Mesmo assim, Jesus lhes deu a missão de proclamar o Evangelho ao mundo inteiro. Quem crer e for batizado, será salvo. (Mc 16,15)

            Ora, como podiam falar aos judeus de um Messias condenado à morte pelas autoridades civis e religiosas deles?  Como apresentar a sua mensagem aos pagãos que nem conheciam as profecias? Quem podia acreditar que o tinham visto ressuscitado? Read the rest of this entry »

Hidroelétricas Amazônicas

abril 9th, 2010

Hidroelétricas Amazônicas

Muitos lutam contra novas usinas, mas não apresentam alternativa melhor.

            Agora querem mobilizar a Igreja no combate contra projetos do Governo. A fala do bispo de Altamira contra o Belo Monte comove corações de pedra. Respeito o posicionamento de um irmão que mora no Xingu, mas não posso aceitar que adversários das hidroelétricas queiram envolver a Igreja nessa luta. Também sou igreja. Também sou bispo. Onde está escrito que todos os bispos devem ter a mesma opinião num assunto técnico e político tão polêmico?

            Quando um bispo toma uma posição tão radical como Dom Erwin, a maioria silenciosa dos bispos não manifesta pontos de vista diferentes, para não contrariar um colega. Outros concordam com ele, mas sabem que não devem endossar seu ponto de vista como se fosse doutrina da Igreja.  

A Bíblia não manda deixar a Amazônia eternamente deitada no berço esplêndido. Também não diz que as usinas hidroelétricas são a melhor solução para produzir a energia do futuro. Mas diz que Deus nos confiou o domínio sobre a terra e nos deu a capacidade de fazer a terra produzir. Não encontrei na Bíblia nenhuma proibição de usar os recursos naturais para o progresso.

            Não nego que a construção de grandes usinas na floresta tenha efeitos colaterais negativos que os construtores devem levar em conta e compensar. Não se pode fazer omelete sem quebrar uns ovos. Moro longe daquela região privilegiada, mas sei que o Brasil precisa de mais energia.

            Quais seriam as alternativas? Aumentar ainda mais o transporte de óleo Diesel para alimentar usinas termoelétricas na Amazônia? Queimar ainda mais florestas para usinas movidas a carvão? Usinas atômicas? Usinas eólicas na floresta? São boas para lugares descampados com bons ventos, mas não são alternativa, são complemento.

O futuro está na energia solar. Temos áreas improdutivas disponíveis para produzir energia limpa para muitos séculos. Áreas de represas podem ser aproveitadas também. Oferecendo, de quebra, sombra para peixes.

No campo da energia solar, o Brasil com tantas terras ociosas está muito atrasado e vai ser por muito tempo ainda o país do futuro. A razão do atraso está no tamanho dos juros. Projetos de energia solar exigem investimentos pesados com retorno financeiro demorado. Com juros acima de 5% ao ano não conseguem nem pagar os juros, muito menos devolver o capital investido.

Qualquer pesquisa histórica revela que os inimigos das barragens estão sempre nos mesmos setores da sociedade civil e da Igreja, apoiados por ONGs financiadas e comandadas do exterior. Eram contra a barragem de Sobradinho, contra as usinas no São Francisco, contra Itaipu, contra Tucurui. Agora são contra hidroelétricas na Amazônia. Não querem ver o lado bom do progresso.

O que seria do Nordeste hoje sem Sobradinho? Do Norte sem Tucurui? Do Brasil sem Itaipu? O que vai ser do Brasil sem novas usinas? Não pretendo que a CNBB assuma o meu ponto de vista, mas também não deve jogar o seu peso na luta contra as usinas que são a solução mais viável para saciar a fome de energia elétrica do país no futuro próximo.

Certas entidades já foram denunciar o Brasil na ONU por supostas violações de direitos humanos em projetos de barragens. Será que o Brasil não tem capacidade de resolver seus problemas sem interferências externas? Em nenhum lugar do mundo é possível esperar com a construção de uma grande barragem até que o último morador da área dê seu voto favorável. A criação de empregos vai melhorar a vida do povo da região e de outros que virão.

A oposição contra Belo Monte tem seu valor na medida em que contribui para evitar ou compensar efeitos negativos. É nociva na medida em que causa demora na realização de obras tão importantes para o país inteiro.

Quem apóia corrupto é

abril 5th, 2010

Vai votar em candidato apanhado em corrupção?

Para quem não conhece bem os candidatos todos, é difícil distinguir entre joio e trigo. Mas este mês vai ser votada no Congresso uma lei que pode ajudar a deixar de fora candidatos de ficha suja.

Perguntas para eleitores pensadores

1)      Temos a lei seca feita para diminuir acidentes causados por bebida. Para saber se o motorista bebeu ou não, basta usar o bafômetro. O problema é que o bêbado pode recusar o teste. Advogados especializados em encontrar brechas nas leis dizem que ninguém pode ser obrigado a fornecer provas contra si mesmo.

Você consegue adivinhar quem é que se recusa a fazer o teste?

2)      Ainda este mês deverá ser votado no Congresso Nacional um projeto de lei para excluir candidatos com ficha suja. A proposta teve um milhão e meio de assinaturas. 

Você consegue adivinhar quais serão os deputados e senadores a votar contra?

Vai votar em candidatos que não querem essa lei?