Política econômica precisa ser para todos

maio 18th, 2013

Aos interessados em economia e política econômica trago aqui um texto do meu baú.

É do século passando, quando ainda nem existia meu Blog onde pensadores podem encontrar coisas novas sobre muitos assuntos. Minhas ideias não envelhecem

Previsões confirmadas, advertências para o futuro 

            Aos que acham estranho que um bispo se meta a escrever sobre economia, apresento aqui algumas explicações.  Não sou economista, mas entendo de matemática e tenho bom senso, coisa que alguns perderam de tanto estudar teorias. Ao tratar de assuntos de economia, não é o bispo que ensina, é o matemático que fala.

            Comecei a escrever na época do Plano Collor. Não aguentei ficar calado diante dos efeitos colaterais previsíveis da receita adotada para combater a inflação.  A maioria dos economistas só percebeu mais tarde que os remédios aplicados contra a inflação tinham efeitos mais fortes contra o crescimento da economia. Tentei chamar a atenção para os problemas, na esperança de conseguir alguma mudança, mas nem consegui fazer-me ouvir.

            Estamos num ano de crise que exige opções decisivas para o futuro do país. Alguém precisa se mexer para evitar a repetição dos mesmos erros que atolaram o país em dívidas, diminuiram o crescimento e aumentaram o desemprego. Até agora todos os planos econômicos tentaram vencer a inflação com a mesma receita: conter o consumo através de juros altos e aperto monetário. Em vão tentei alertar sobre as consequências negativas desta receita que pode ser eficiente num primeiro momento, mas atrasou o desenvolvimento e levou à situação atual de endividamento e de recessão, como previ e avisei.

            Apresento em itálico algumas afirmações e previsões que venho fazendo desde o início da década. Se acertei até agora, seria bom levar em consideração as minhas advertências atuais, para não cair de novo nas mesmas armadilhas.

             Escolhi as citações visando especialmente aqueles que ainda hoje defendem os juros absurdos para conter o consumo. É impressionante como os economistas da dívida insistem na aplicação dos mesmos remédios que vêm produzindo resultados desastrosos.

1)      Querem superar inflação com recessão, um remédio pior que a doença. (Abril de 90)

2)      Não sabiam que a contenção do consumo é caminho direto para recessão?  (Abril de 90)

3)      Dizem que existe dinheiro demais em circulação, mas quem procura dinheiro para investir na produção só encontra a juros altíssimos. (Junho de 90)  Quem aguenta financiamentos com juros de agiota?

4)      A contenção do consumo, apresentada como remédio contra a inflação, tem um efeito colateral que é  pior que a doença. Trocar inflação por recessão é trocar febre por infecção hospitalar.

5)      Se a inflação resulta de um desequilíbrio entre procura e oferta, a saída construtiva não está na contenção do consumo para diminuir a procura, mas na expansão da produção para aumentar a oferta. (Maio de 93)

6)      Está na hora de fazer uma reforma monetária que possibilite a reorganização da economia do país. (Maio de 93)     Depois desta minha proposta ainda levaram um ano para implantar o Real, e deixaram de aproveitar o momento favorável para derrubar os juros para níveis civilizados.

7)      Está na hora de substituir dívidas e juros por dinheiro novo, vacinado contra a inflação. (Dez de 93)  Perderam aquela ocasião excepcional, quando as dividas eram menores que as reservas em moedas e em estatais.

8)      A coisa mais urgente é tomar medidas adequadas para diminuir o peso da dívida interna. … Se os economistas não sabem como conseguir uma redução substancial nos gastos com a dívida interna, posso apontar um caminho. Só a redução dos juros para níveis civilizados reduziria esta despesa para menos da metade. (Dezembro de 93)

9)      Juros altos inibem a produção de hoje e alimentam a inflação de amanhã…  Deixam os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.  E desequilibram as finanças públicas. O grande pagador de juros é o Estado. (Dezembro de 93)

10)  Não é a quantidade de dinheiro no mercado que provoca inflação, mas a falta de dinheiro para a produção. (Dez 93)

11)  Tenho certeza que a única saida que temos é cortar de uma só vez os quatro males, a inflação, a recessão, o desequilíbrio das finanças públicas e os juros exorbitantes. É um dragão de 4 cabeças. Se cortar uma só, ela cresce de novo. (Dez 93)    Tentaram eliminar apenas a inflação, e agora ela está de volta. Até que demorou. Mas esta demora custou caro. Agora temos inflação com recessão, desemprego e endividamento público. Uma combinação de fatores perversos.  Algum economista consegue imaginar uma situação pior?

 12)  O Brasil que estava esperando um projeto para reerguer o país, está com mais um plano que pisa no freio. Outro empurrão na inflação pelo atalho da recessão. O que é isto, Sr. Ministro? Mais recessão para nós?  (Dez 93).                                                                                                        As citações de 7 a 12 são de uma proposta alternativa que tinha feito ao Plano FHC. O então ministro FHC me respondeu num telegrama que o plano dele não seria recessivo.

13)  Num país com milhões de famílias sem pão e sem casa, é preciso implantar um novo dinamismo de crescimento acelerado, já. Chega de metas acanhadas. O medo do crescimento está paralisando os economistas e a economia. (Março de 94)

14)  Os economistas da recessão dizem que o Banco Central deve continuar com a política de juros para conter o consumo. Pretendem curar a febre da inflação com a cama de gelo da recessão. (Março de 94)

15)  Conter o consumo é atrapalhar o crescimento. É impedir que o brasileiro encontre trabalho, coma melhor, construa sua casa, compre seus móveis, tenha estradas, escolas, eletricidade, um serviço de saúde adequado. (Março de 94)

16)  Sem aumento de consumo não há crescimento. Se estivéssemos diante da alternativa entre inflação e recessão, devíamos optar pelo crescimento, mesmo que fosse com inflação. Mas este dilema existe apenas na cabeça de economistas formados nas teorias econômicas complicadas do Norte. (Março de 94)

17)  Se os juros reais não forem reduzidos a 12 %  ou menos, na hora da passagem para o real, teremos apenas mais um plano econômico fracassado. (Abril de 94)  

18)  Os juros exorbitantes estão asfixiando o país, e os economistas que vivem deles não acham um caminho para aliviar este peso.  Ou não querem?  (Abril de 94)

19)  Com juros de 31 %  ao ano, a dívida interna vai para 500 bilhões de dólares antes do fim do ano 2000. (Abril de 94)              Fiz este cálculo para assustar, para provocar alguma mudança que evitasse um desastre deste tamanho. Infelizmente, por uma estranha coincidência, esta foi a média dos juros praticados até agora, e a dívida pública já está em 400 bilhões. Se os juros não baixarem logo, vai além dos 500 bilhões no ano que vem. Sem o dinheiro das privatizações, a realidade estaria ainda pior.                                                                                                                 Vendo que não conseguia fazer-me ouvir, deixei de escrever sobre economia, mas em 99 não consegui mais ficar quieto, diante das tentativas desastrosas e inúteis de defender o valor irreal do Real com juros ainda maiores e com a queima perigosa das reservas.

 20)  Não precisa ser doutor em economia para entender que uma firma que oferece 50 % de juros para conseguir algum dinheiro emprestado não consiga atrair capitais. Se conseguir, pior para ela. Quanto mais dinheiro tomar emprestado a este preço, mais atolada ficará.  (Out. 98)

21)  Não vale a pena sacrificar toda economia do país para manter o valor artificial do real. … Uma coisa é fazer uma desvalorização soberana do alto de 75 bilhões de reservas, único remédio eficaz para equilibrar as contas externas, junto com uma redução drástica dos juros, remédio indispensável para equilibrar as contas internas. Outra coisa é sucumbir a uma desvalorização forçada depois de resistir até não poder mais, um desastre que pode trazer de volta o espantalho da inflação. (Outubro de 98)   

22)  O Brasil precisa crescer num ritmo de 4 %, no mínimo, só para compensar a automatização e o aumento da população ativa, e muito mais para tirar o atraso. (Dezembro de 98)

23)  Agora é difícil sair do atoleiro. A saída passa pela superação do déficit das contas internas, impossível com estes juros. A redução dos juros exige uma política monetária menos medrosa e a superação do déficit comercial, impossível com este câmbio. (Dezembro de 98)

            Sei que há um problema com estes textos, e com os artigos que escrevi sobre economia. Quem não estudou economia vai achar a linguagem difícil, e os economistas vão achar que as coisas que escrevi não estão de acordo com os ensinamentos dos seus manuais de economia, quase todos escritos em inglês e traduzidos em economês. Mesmo assim, estou tentando colocar estas idéias à disposição de eventuais leitores interessados.

            Termino com outra previsão. Se não houver uma mudança radical na economia do país, o ajuste fiscal com suas consequências no agravamento do desemprego e da recessão não vai impedir o crescimento da dívida pública alimentada por juros que asfixiam a economia e já não conseguem impedir a volta da inflação. Por mais que cortem gastos e cobrem impostos, durante o ano inteiro de 1999 não será possível recuperar o que é gasto em juros apenas neste primeiro trimestre, de janeiro a março.

 Jequié, 11 de Março de 1999         Dom Cristiano Krapf,  bispo de Jequié 

Nova impressão desse texto no dia 18 de Maio de 2013, com mais opiniões pessoais provocantes:   Diante de  tanta insistência de tantos doutores em ciências econômicos na defesa de tantos juros, sempre me venho perguntando se atrás das razões apontadas não existem outras guardadas no subconsciente, ou mantidas escondidas.

Com certo receio de falar e provocar reações, indico apenas perguntas pequenas: Será que tantos argumentos complicados em favor dos juros absurdos não são movidos também por interesses pessoais e de grupos? Empregados precisam defender seus patrões. Ora, quem é que paga os economistas? Algum pobre? Quem é que recebe centenas de bilhões de juros da dívida  pública por ano, dinheiro que deixa de ser investido em  educação e saúde, em rodovias e portos e ferrovias? O povão que paga juros também e comida mais cara, e perde serviços importantes com a falta de investimentos? O dinheiro dos juros não cai quase todos nas contas aos donos do capital financeiro que desejam viver de juros? Outros trilhões de  juros  pagos por todos que precisam de dinheiro emprestado, para onde vão?

Ainda bem que nosso Governo atual de Dilma faz pressão para diminuir os juros, e para sobrar mais dinheiro para investir na infraestrutura do País. Ainda bem que conseguiu fazer passar a nova lei dos portos, vencendo resistências ideológicas de  partidos velhos radicais da esquerda contra tudo que tenha cheiro de privatização. www.domcristiano.com       + Cristiano, agora aposentado, mas não parado

CRIADO PARA EVOLUIR

maio 13th, 2013

O QUE NÃO EXISTE NÃO PODE EXPLODIR E EVOLUIR.  A Evolução faz parte da Criação.  

Já no século passado escrevi um longo texto sobre divergências entre crentes e descrentes. Nos conflitos entre Ciência e Fé, onde está a Razão?  O mundo surgiu por explosão e evolução, ou foi criado por Deus? Não vejo razão para tantos conflitos entre criacionistas e evolucionistas.

Se a Revelação da Bíblia fala da Criação do mundo em poucos dias, e e a Teoria da Evolução vem dizer que tudo começou num Big Bang e levou bilhões de anos até agora, onde está a verdade? Deus é mais que o Grande Arquiteto do Universo. Um arquiteto pode imaginar o que quiser, mas nada faz sem materiais. Num Big Bang também só pode explodir o que existe.

Quero conhecer os segredos do Universo e os mistérios da nossa existência, mas ainda não achei teoria científica que possa ficar no lugar de Deus. Aos que querem explicar a origem de tudo num Big Bang, agora com ajuda de um Boson que chamam com o nome insensato de partícula de Deus, respondo com perguntas de criança: O QUE FOI QUE EXPLODIU? De onde veio tal matéria-energia que explodiu para evoluir e encher o espaço de bilhões de estrelas e a terra de bilhões de plantas e bichos, e para tornar-se morada de homens a conviver com Deus?

Para crentes amarrados ao pé da letra da Bíblia sobre a Criação de tudo em sete dias, tenho outras perguntas: Se o sol foi criado no quarto dia, como havia dias antes? Onde está escrito que Deus criou tudo prontinho, sementes de capim e todo tipo de plantas, um casal de baleias e um de piabas, um de pombas e outro de pardais, um de cabras e outro de chacais?

 A minha Bíblia diz outra coisa, para ser entendida também no mundo de hoje, por doutores e analfabetas. Criacionistas, que apenas enxergam os textos que falam da criação do mundo numa semana, não podem ignorar que a Bíblia também se refere à evolução: Deus disse: “A terra faça brotar plantas que produzam sementes, e árvores frutíferas”. “Produza a terra seres vivos segundo suas espécies.” Resumindo: DEUS FEZ O MUNDO PARA EVOLUIR.

Filosofia e Teologia explicam: Deus é Criador de tudo. Apenas Ele existe por si mesmo. Foi assim que Deus se apresentou a Moisés. Filósofos gregos deram definições parecidas depois. Não sei se conheciam os livros da Bíblia, a Revelação de Deus ao povo judeu por Moisés.

 A Ciência surge da evolução da mente humana que realizamos com as capacidades que Deus nos deu. Cada geração continua sobre alicerces feitos por outros. Avançamos entre erros e acertos, muitas vezes com teorias que ainda precisam de confirmação. Com o dom precioso e perigoso da liberdade que recebemos de Deus, podemos fazer estragos em vez de contribuir. Ciência e tecnologia podem ser usadas para o bem ou para o mal, para construir ou destruir.

Deus nos quer parceiros livres na sua obra, na construção da nossa vida, e da morada de todos. Também na sua Revelação e para fazer-se presente na terra. Ele conta com nossa boa vontade. Surge a pergunta: Se Deus quer ser encontrado por quem o procura, por que não faz milagres maiores e mais frequentes para ninguém poder duvidar da sua presença e da sua existência? Acho que ter liberdade de errar é melhor que ser escravo empurrado na marra da evidência.

Na Bíblia temos textos difíceis que podem servir de desculpa para quem deseja fugir da luz da verdade, mas oferece orientação segura para quem a procura. Deus criou um CAOS, do qual fez surgir estrelas e planetas, e a terra para nossa morada.

(Texto de Março de 2013, reformulado agora em Maio)       www.domcristiano.com

Amor e Matemática

maio 2nd, 2013

No meu tempo de jovem me vinham ideias de amores e flores. Coisas assim:

1)      Existe amizade que é como a flor do campo. Não se sabe como nasce, e faz o caminho ficar mais bonito.  

2)      Quem ama sua rosa sabe alegrar-se com perfumes e cores das flores, em vez de chatear-se com espinhos mesquinhos e ficar a mexer em galhos e dores.

Agora vejo essas e outras invenções literárias andando aí em textos de outros. Não sei se já pensavam coisas semelhantes antes. Num século de tanta imprensa ficou mais difícil alguém inventar novidades e pensamentos independentes.

Se você gostar de matemática, procure fazer ligeiro a soma dos números entre um e cem.  Por escrito, ou de cabeça se conseguir.

Quanto tempo levou? Se for professor de matemática, pode fazer um teste com os alunos para ver quem consegue ser o primeiro que apresente o resultado.

Um dia meu professor de matemática me viu de olhos fechados na sua sala. Achou que estava dormindo e me deu o castigo de somar os números entre um e mil. Surpreso com a rapidez do resultado que encontrei e apresentei, e com o método que apliquei e expliquei, o professor me deu parabéns e me disse que meu método já foi inventado muito tempo atrás pelo matemático Gauss. Não conhecia sua teoria sobre números triangulares e sua fórmula de calcular a soma de progressões aritméticas, mas achei o resultado brincando pelo caminho da intuição.

Para qualquer problema que surge procuro minhas soluções, antes de ver as respostas achadas por outros. Assim “inventei” algumas coisas já inventadas por outros mas também ainda tenho ideias novas esperando por aplicações. Talvez agora, aposentado mas não parado, venha ter um tempo para isso.

Depois dessas divagações você quer saber o que tem a ver o amor com a matemática.  Talvez você pense que eu pense que o amor quer somar carinhos e beijos e multiplicar abraços e declarações de paixões, subtrair despesas e sofrimentos e depois de casar dividir a cama.  Mas o amor não contabiliza deveres e haveres. Não tem balança de ofensas e favores. O amor contradiz o primeiro princípio da matemática, pois UM SÓ AMOR TEM MAIS VALOR QUE MUITOS AMORES.

Quem ama pode fazer o que quer, porque quer o que for bom para o amado. Vivemos na perplexidade do relativismo na questão da verdade e da confusão na questão de valores. Estamos no tempo das incertezas. Perdeu-se toda segurança da diferença entre verdade e erro, entre o bem e o mal. Inimigos do cristianismo querem desmoralizar a moral cristã que anda enfraquecida pela fraqueza moral de cristãos.

A força moral do cristianismo está no mandamento do amor que dá sentido aos outros mandamentos que protegem os direitos de todos.

Ora, como é que amar pode ser exigido num mandamento?  O amor não é a  coisa mais livre e mais espontânea no mundo? Não é como a flor do campo que não se sabe como nasce? Amor é palavra usada e abusada por muitos amantes que apenas procuram prazer.

Um amor pode nascer sem querer, mas precisa ser cultivado com carinho e dedicação. O amor não pode ficar limitado a sentimentos e afetos e atrações, mas precisa ter dimensões espirituais de amizade, de querer bem, querer o bem do outro.  Por outro lado, a palavra caridade que vem do latim, também não pode ter apenas o seco sabor de esmola. Não pode ser limitado à doação de coisas sem envolvimento pessoal e sem fazer parte da luta por um mundo melhor para todos, a começar com quem estiver mais perto, o próximo.

Ninguém ainda achou descrição tão boa do amor cristão como Paulo (1 Cor 13).

Neste século muito se fala de crise na Igreja, crise na família, crise no clero. Será uma crise de Fé? Está faltando Amor? Quanto à família, ninguém duvida que seu sustento está no amor. Também a vida do padre começa num grande amor. Um amor  que deve durar pela vida toda. Não faz sentido deixar esposa e filhos que podia ter, se não for movido por um amor maior na dedicação à sua missão.

A exigência do celibato está na linha da proposta de Jesus de deixar tudo para ser discípulo seu. Não faz sentido renunciar a ter a sua família e depois apegar-se a coisas menores.

            Talvez me digam que tal ideal não é real. Mas num mundo de tanta família desfeita não é de estranhar que também existem padres que desistem da sua missão. Somos feitos da mesma matéria. Somos sujeitos a tentações e temos limitações.

            No meu caminho tem amor e matemática. Um grande amor está na raiz da vocação que faz um missionário sair da sua terra para contribuir para construir um mundo de paz e amor. Na escolha do país do meu destino entrou a matemática. Quis escolher o país com carência maior de padres.   Foi assim que vim parar na Bahia.

            Acho que aqui estou no lugar que pedi a Deus na prece dum velho missionário conterrâneo preso por muitos anos na China: Colocai-me, Senhor, aonde me quereis!

Jequié, primeiro de maio de 2013.         + Cristiano Krapf

Igreja e Mundo esperando o novo Papa

março 9th, 2013

Um mês depois que Bento XVI revelou ao mundo sua intenção de entregar para outro as chaves da Igreja vai começar a eleição do seu sucessor por 115 Cardeais.

 A grande repercussão da decisão do Papa na imprensa levou a crentes e descrentes  a refletir sobre a missão da Igreja neste século de incertezas. Muitos ainda procuram motivos ocultos atrás da razão muito simples “alegada” pelo Papa que preferiu dar lugar a outro mais novo com melhores condições de saúde para dar conta das tarefas diárias de um Papa e da responsabilidade de tomar decisões de grande importância para a Igreja e para o mundo.

Será difícil achar um substituto à altura para Bento XVI, mas ele é bastante realista para saber que não é insubstituível. Sentindo o peso da idade, achou que outro mais jovem possa enfrentar melhor os problemas da confusão de religiões e ideologias deste mundo e da crise de fé  de cristãos desunidas, preferiu renunciar. A ideia da renúncia ganhou força com conselhos médicos contra longas viagens. Acho que a decisão final foi tomada pensando na jornada mundial da juventude no Brasil. Por mais que Bento XVI quisesse participar deste evento, a previsão de possíveis impedimentos por problemas de saúde pode ter contribuído para levar o Papa a deixar o lugar em tempo para que seu sucessor possa participar da JMJ.

Admiro a capacidade de trabalho de um Papa que conseguiu cuidar das suas tarefas difíceis e preparar tantos discursos e tantos documentos sobre tantos assuntos, e ainda achou tempo para escrever livros tão bem pensados que os católicos deveriam ter tempo para ler.  

            Muitos criticam o Papa sem conhecer seus ensinamentos, apenas por ouvir dizer que é conservador e por ter uma vaga ideia que ele não concorda com tudo que acham e não aprova tudo que fazem. Nas minhas últimas férias na Suíça, ainda no tempo de João Paulo II, diante das críticas negativas de muitos, fiz uma pergunta assim num sermão: Será que este não é o Papa certo para este tempo de confusão no mundo e na Igreja, escolhido pela providência divina?  Desde então, também tenho “fama” de conservador.

                Comentários divergentes surgiram sobre a renúncia do Papa.  A grande repercussão da novidade na imprensa do mundo inteiro fez crescer o interesse de todos por questões de fé, mas atraiu também adversários que gostam de mexer  nas latas de lixo da história para descobrir os erros e pecados, reais ou inventados, de pessoas da Igreja nos 19 séculos da sua existência. Outros preferem falar mal dos Padres e Bispos e Cardeais da Igreja de hoje. 

Não são apenas inimigos de fora que criticam a Igreja e o Papa. Incomodados com a firmeza de Bento XVI no cumprimento da missão que lhe foi confiada, muitos gostam de falar de coisas que lhes parecem negativas nas atitudes e nos ensinamentos do Papa, em vez de acolher com fé as orientações daquele que foi colocado por Jesus para confirmar seus irmãos na unidade da fé.  

Alguns dizem que o Papa foi incapaz de manter a Igreja unida. Os mesmos criticam sua firmeza na defesa da fé e da obediência aos mandamentos de Deus. São doutores de teologias que pretendem construir a unidade da Igreja sobre as areias movediças de suas próprias teorias. Minando a confiança na verdade histórica sobre a vida e os ensinamentos de Jesus apresentados no Novo Testamento, enfraquecem os fundamentos racionais da fé.

Querem um Papa que não se oponha às “conquistas” da mentalidade deste mundo relativista e deixe de insistir na importância de critérios objetivos para distinguir entre a verdade e o erro, entre o bem e o mal. Um Papa que desista de afirmar que os mandamentos de Deus ensinados na Revelação do AT e confirmados e reforçados por Jesus continuam em vigor.

Não reconhecem que a Igreja tem muita coisa boa a conservar. O que a Igreja pode aprender é insistir menos no mal do pecado e mais no bem da virtude. Fazer entender que a proibição do adultério, por exemplo, não é para tornar a vida menos interessante, mas para apoiar a felicidade da vivência de um grande amor na família.

              Num tempo de palpites sobre a sucessão, também apresento os meus: Podem surgir mais novidades: Um primeiro Papa de fora da Europa. Talvez um Papa ainda não Cardeal, um simples Bispo. Quanto ao nome: Pode ser mais um Leão. Ou um Cristiano, um nome bom para crentes sectários que dizem que os católicos não são cristãos.       O Papa se apresentando assim: Cristianus sum. Sono Cristiano. Soy Cristiano. Sou Cristão. O importante é que o Papa seja Pedra firme no alicerce da Igreja de hoje.             

                                                                   Jequié, 9 de março de 2013    www.domcristiano.com.br

Evolução sem Criação ?

março 3rd, 2013

 

Para poder evoluir, precisa existir.  A Evolução faz parte da Criação.

Em janeiro botei no meu Blog um questionamento sobre teorias que pretendem explicar a origem de tudo que existe com teorias sobre um Big Bang e um Boson de Higgs que teriam dado início à evolução de tudo que conhecemos.

Em dezembro de 2010 tinha colocado um texto com a pergunta: Crer em Evolução?

Muitas coisas são ditas e escritas sobre o conflito entre Criacionistas e Evolucionistas. Resolvi dizer e escrever alguma coisa sobre a insensatez dessa briga entre pessoas que não conhecem nem o que diz a Bíblia sobre a Criação do Mundo, nem o que diz a ciência sobre a Evolução.  Tenho uma grande curiosidade para conhecer tudo que existe, mas ainda não achei nenhuma explicação realmente científica sobre a origem do Mundo e da Evolução.  

Aos que pretendem explicar a Evolução de Tudo a partir de um Big Bang, agora com ajuda de um tal de Boson de Higgs que chamam com o nome insensato de partícula de Deus, respondo com perguntas de qualquer criança-filósofo: O QUE FOI QUE EXPLODIU? QUEM FOI QUE FEZ  AQUELA FORMIDÁVEL MASSA-ENERGIA “INICIAL”?  COMO SURGIRAM BOSONS?

Para crentes que ignoram a evolução do conhecimento humano e pretendem explicar tudo pela descrição poética da Bíblia sobre a Criação do Mundo, tenho outras perguntas: COMO PODIAM EXISTIR DIAS ANTES DA CRIAÇÃO DO SOL NO TERCEIRO DIA? Em vez de perder tempo com tentativas de pegar ao pé da letra todos os pormenores sobre a criação do mundo, por que não procuram entender a essência da Palavra de Deus que tem afirmações que falam da evolução desde o início: Deus disse: “A terra faça brotar plantas que produzam sementes, e árvores frutíferas”. (No terceiro dia, antes do Sol? Pergunto aos amarrados ao pé da letra)

Depois diz a Bíblia:   Deus disse: “Produza a terra seres vivos segundo suas espécies.

 A Ciência é fruto da evolução da mente humana, evolução construída em colaboração do homem com Deus , e entre as pessoas humanas. Cada geração continuando suas conquistas a partir dos conhecimentos anteriores. Avança com hipóteses e teorias que ainda carecem de confirmação e são sujeitas a erros e conclusões precipitadas.

Exemplos de afirmações superficiais existem também do lado de crentes, como na primeira mensagem de parabéns que recebi do dirigente de um clube famoso quando fui nomeado para Bispo de Jequié: “Nós também acreditamos no Grande Arquiteto do Universo.” Um arquiteto pode ser criativo em ideias, mas nada faz sem materiais.  Não é como Deus.

Deus não precisou de nada para criar tudo mais que existe. Também não precisa de ninguém para manter na existência suas obras, mas quer confiar-nos a missão de colaborar com nosso ser e agir na organização do nosso convívio e na evolução do futuro da terra.

Na vocação de Moisés para ser o libertador do povo judeu, Deus se revelou como aquele que é, aquele que tem em si mesmo sua existência, seu ser. O único que não foi criado por outro. Ele é aquele que criou tudo mais que existe.  Alguns séculos depois, filósofos gregos deram uma definição parecida: Deus é a última causa de tudo. Tudo tem sua origem nele. Criou um CAOS destinado a evoluir para um COSMOS maravilhoso com a terra que o homem possa ter por  morada entregue aos seus cuidados.

Jequié, 03/03/13  Com algumas modificações em 23/03/13

Respondendo Manifesto

fevereiro 15th, 2013

Resposta ao Manifesto de jovens de outra Diocese

Caros Jovens descontentes com a Igreja,

Preocupações financeiras me tiraram o sono e me levaram a procurar alguma coisa para me distrair com outros pensamentos. Talvez me digam que um bispo deveria ter outras preocupações, mais espirituais, mas tenho coisas atrasadas a pagar. Recorri ao manifesto de vocês que tinha copiado antes de dormir. Já era tarde, e não gosto de ler direto no computador. 

Não posso deixar de apresentar algumas observações, por agora. O mundo precisa do espírito crítico dos jovens, mas apontar os erros dos outros não vai melhorar o mundo. Vejo que vocês são capazes de fazer coisas mais importantes, já que mostram interesse em conseguir que os jovens sejam melhor atendidos por padres e bispos.Se quiserem contribuir para melhorar, não fiquem esperando e cobrando que ”a Igreja” faça mais por vocês. Vocês são capazes de realizar coisas muito mais importantes. Nas paróquias de vocês, a Igreja são vocês. O padre é apenas um, e uma andorinha só não faz verão, nem suja a praça toda.

São Francisco conhecia bem os defeitos do clero daquele tempo. Em vez de perder tempo criticando, resolveu fazer melhor. Não foi ser padre, mas fez muito mais que qualquer  dos padres daquele tempo.  

Se você não for um paroquiano atuante, não adianta pedir ajuda financeira par viajar à  JMJ. Pela maneira de falar, vocês são jovens pobres. Conheço muitos jovens que dizem que não tem dinheiro para pagar taxas para encontros de Igreja, mas têm dinheiro para cerveja. E para festas de clube.  Que tal, fazer um sacrifício neste tempo de quaresma? Talvez para ajudar outros mais fracos? Você quer que o padre ajude os pobres?  E você, se tiver algo mais, por que não ajuda também?  

No meu tempo de jovem, também fazia críticas, especialmente quando trabalhei um ano numa fábrica, e depois também nas férias, para juntar um dinheiro para pagar meus estudos. Era um ambiente anticlerical. Os colegas diziam que os padres tinham vida boa sem trabalhar. Para alguns de vocês, tenho uma proposta: Se você acha que na sua paróquia deveria ter um padre melhor, por que não se apresenta para ser este padre para a próxima geração de jovens?

É claro que isso não é coisa para todos, e a vocação para freira não parece muito atraente para as meninas de hoje.  Mas não precisa esperar para um duvidoso futuro distante. Comece hoje a fazer alguma coisa, no lugar que está. O melhor missionário para jovens é um colega jovem.

Se achar que não consegue tirar proveito das pregações do padre, por que não tira proveito das leituras? Por que não faz leituras pessoais e organiza grupos de jovens?

Sou considerado um bispo conservador, por não dar muito valor a passeatas contra isso e contra aquilo, e por achar que a missão mais importante da Igreja é cuidar da fé.  Ou por achar que revolução, derrubada de regimes e estruturas não garante um futuro melhor. Só teremos um mundo melhor com homens e mulheres melhores.

No meu Blog coloquei um recado para padres, apresentando um ideal que pode parecer exagerado. Quem não tiver objetivos grandes não vai chegar nas alturas.. 

Jequié, madrugada de 15/02/2013 +Cristiano Krapf, bispo emérito de Jequié.                

Talvez vocês achem este título de emérito um tanto pomposo.  Acho pior o título de aposentado, coisa que parece com preguiçoso, sujeito que não quer mais nada, além de sombra e água fresca, fartura e sossego. O manifesto de vocês deixa a impressão que acham que certos padres querem apenas isso.  

 Assim como julgarem os outros, vocês serão julgados.

Também na Igreja falta união

fevereiro 8th, 2013

QUEREM UNIR AS IGREJAS SEM UNIDADE NA IGREJA ?

Foi sobre isso que escrevi em 2004 um texto em alemão sobre as divisões entre cristãos e dentro da igreja católica. Continuo preocupado com as divergências crescentes entre crentes. 

Hoje resolvi acrescentar ao meu recado de janeiro aos padres uma reflexão sobre o problema  dos desentendimentos na igreja católica que procura promover a unidade dos cristãos pelo caminho do ecumenismo, mas nem consegue reconstruir sua própria unidade.

Repito aqui as considerações que acrescentei sobre o movimento ecumênico que nem consegue superar as divisões internas da igreja católica e das outras denominações cristãs cada vez mais divididas e separadas em novas congregações.

ECUMENISMO: Devemos trabalhar para recuperar a unidade dos cristãos, pelo menos para unir todas as pessoas de boa vontade na construção de um mundo melhor. Mas, se dentro da Igreja não conseguimos viver unidos, como podemos colaborar para unir todos os cristãos e todas as nações?  

A unidade da Igreja não pode ser construída em torno de teorias de doutores de teologia que fazem sucesso com suas novidades copiadas de velhos autores, da Igreja ou fora dela, que questionam a verdade histórica de conteúdos essenciais da Bíblia.

A base da união na Igreja está nos documentos do Concílio e no magistério do Papa.  As raízes da discórdia estão nos radicalismos da direita e da esquerda. Uns condenam as novidades do Concílio, outros querem forçar mudanças maiores. Adeptos dos dois extremos procuram justificar suas posições atribuindo os erros do outro à Igreja toda.

Obedecer com Liberdade

janeiro 26th, 2013

Obediência e Liberdade     (Escrito em Janeiro, com retoques em Fevereiro)

Na ordenação do padre Leandro preparei um recado para padres. Não sei se o texto vai ser bem recebido, mas resolvi colocar no BLOG.

Na ordenação, o padre promete obediência ao Bispo, mesmo neste tempo que muitos querem democracia na Igreja, nas dioceses e nas paróquias. A virtude da obediência perdeu prestígio. Leigos querem ensinar o Pai Nosso ao Vigário. Teólogos trocam o conteúdo da fé por teorias ditas científicas que não admitem intervenções de Deus na história. Padres querem mandar na Paróquia, mas não querem obedecer na Diocese.

Na Igreja falta unidade obediente ao Papa que foi escolhido para confirmar os irmãos na fé, e na fidelidade aos ensinamentos de Jesus no Evangelho. Quanto às paróquias, muitas ainda devem encontrar o equilíbrio entre autoridade do pároco e participação ativa e corresponsável dos leigos.

Quanto à promessa de obediência do Padre ao Bispo, o ideal é que não precise ser cobrada, mas que seja oferecida em plena liberdade.

Fica um dilema para o Bispo: Esperar que todos cumpram livremente sua promessa de obediência, ou recorrer a medidas de imposição? Certo padre chegou a dizer aos colegas que ia fazer um curso, mas que não queria que o Bispo fique sabendo.

A obediência prestada em plena liberdade tem importância especial em relação ao Papa. Longe dos Bispos, dos Padres e dos Leigos, não pode controlar tudo.

Surgiu na Igreja uma inversão de valores. Bispos são criticados por sua obediência ao Papa que é criticado como conservador por não querer adaptar a doutrina e a moral da Igreja ao gosto da maioria que vacila na fé e prefere caminhos menos exigentes.

Ainda bem que a Igreja tem muita coisa boa a conservar, a começar dos textos escritos pelos evangelistas no primeiro século e conservados pela Igreja para sempre, para todos que procuram conhecer os ensinamentos de Jesus.

Neste mundo cada vez mais alheio aos valores do Evangelho, padres e bispos devem dar um exemplo corajoso de obediência às exigências dos mandamentos de Deus. Não podemos fugir da cruz de uma vida dedicada aos outros no caminho do nosso serviço sacerdotal. 

Discípulos de Jesus não podem ser consumistas egoístas à procura de vida boa e posse de bens. Um leitor atento já deve ter percebido que tais exigências não são coisa só para padre, mas para todo cristão.

Num mundo que vive para o dinheiro e para o prazer, o padre deve ser capaz de apresentar outros valores, ainda mais num século de esgotamento dos recursos naturais da terra. Precisamos de um novo pensamento que produza novas atitudes.

Não tenho receita para resolver o dilema entre desenvolvimento e sustentabilidade. Mas sei que não haverá paz nem justiça na terra, se os homens não aprenderem a contentar-se com um padrão de vida mais modesto. Para que todos possam ter o necessário para viver, todos precisam ter a disposição de renunciar às comodidades     e aos desperdícios de uma vida de luxo. Uma terra de pessoas sem ideais além da procura de vantagens e comodidades nunca será um mundo fraterno de paz.

A mentalidade mundana não pode entender o sentido da exigência do celibato na igreja católica romana. O celibato só faz sentido no contexto de um desapego geral dos bens deste mundo. Renunciar ao convívio de esposa e filhos não combina com vida de rico na comida e na bebida e na morada.

A formação de um padre exige muitos anos de filosofia e teologia. O seminarista sabe que deverá trabalhar com dedicação integral, sem recompensa financeira comparável ao salário de um profissional de medicina ou direito com o mesmo tempo de estudo.

Uma das centenas de outras igrejas cristãs fez um convite ao estudo da teologia para ser pastor com salário bem atraente.  A igreja católica tem falta de padres, mas não pode nem deve atrair candidatos com promessas de prosperidade.

Num tempo de desconfiança geral, um padre já não tem a estima de todos por ser padre, nem mesmo da maioria dos católicos. O reconhecimento do seu valor depende das suas qualidades pessoais e da dedicação ao seu serviço. Apresentando a todos as exigências da Palavra de Deus, não pode contar com a boa vontade de todos. Muitos tentarão descobrir defeitos do padre para justificar seus próprios pecados.

Um discípulo de Jesus deve ter a coragem de carregar sua cruz. Será criticado como foi Jesus. Talvez também perseguido, coisa que acontece ainda hoje em muitos lugares.   A vida de um padre não é para ter, mas para fazer.  Não é para juntar, mas para dar. Não para receber, mas para oferecer . Não para ser servido, mas para servir. O padre não é padre para si mesmo. Não vive para seus interesses, mas para os outros.   

Além disso, o padre deve ter um objetivo maior: Levar outros cristãos a viver assim.        Se o padre não for o primeiro a dar o exemplo, suas palavras serão levadas pelo vento.

ECUMENISMO: Devemos trabalhar para recuperar a unidade dos cristãos, pelo menos para unir todas as pessoas de boa vontade na construção de um mundo melhor. Mas, se dentro da Igreja não conseguimos viver unidos, como podemos colaborar para unir todos os cristãos e todas as nações?

A unidade da Igreja não pode ser construída em torno de teorias de doutores da teologia que fazem sucesso com suas novidades copiadas de velhos autores, dentro e fora da Igreja, que questionam a verdade histórica de conteúdos essenciais da Bíblia.

A base da união na Igreja está nos documentos do Concílio e no magistério do Papa.  As raízes da discórdia estão nos radicalismos da direita e da esquerda. Uns condenam as novidades do Concílio, outros querem forçar mudanças maiores. Adeptos dos dois extremos procuram justificar suas posições atribuindo os erros do outro à Igreja toda. 

Festa dos Reis do Oriente

janeiro 6th, 2013

EPIFANIA    A Festa do Começo da Revelação de Deus às Nações

Magos que vieram do Oriento. Ou pequenos Reis?  Não eram magos a fazer magias, mas estudiosos que sabiam coisas que outros não sabiam. Não seguiram apenas a luz da estrela, mas foram iluminados na sua mente. Deixaram se guiar por por luz interior. Sete séculos antes, o profeta Miquéias falava que de Belém nascerá um rei para Israel.

Chegando a Jerusalém, não viram mais a estrela. Ao saber de visitantes procurando um “rei dos judeus, recém nascido”, o rei Herodes fingiu interesse pelo menino, mas tinha intenções mortíferas. Pensava apenas em livrar-se de um possível concorrente ao seu trono. Queria fazer os sábios voltar de Belém com informações exatas sobre o menino.

Encontrando o menino com Maria sua mãe, os magos entregaram presentes: ouro, incenso e mirra. Presentes providenciais. Sem eles, como poderia o pobre José com Maria e com o menino pequeno enfrentar a longa viagem pelo deserto até o Egito?

Herodes, sem informações exatas sobre o menino que parecia ameaçar o seu poder, mandou matar todos os meninos de Belém que tinham menos de dois anos.Herodes era um pagão que mandou matar algumas dezenas de meninos para eliminar aquele que lhe parecia ameaçar o seu reinado.

No mundo de hoje são feitas coisas parecidas, até por pessoas que se dizem cristãos.  Milhões de crianças são eliminadas ainda no seio materno, também para evitar que venham atrapalhar a vida de alguém, muitas vezes de um homem egoísta que procura prazeres do sexo sem assumir a responsabilidade de pai.

Neste mundo que se diz evoluído existe uma forte pressão para todos os países adotarem leis que permitam o aborto até o fim da gestação, até a criança botar a cabeça para fora, o chamado nascimento parcial. Outros querem justificar também o assassinato de crianças já nascidas, e de velhos “inúteis”.

Cristãos de fé não procuram evitar apenas pecados proibidos também na lei civil. Muitos criticam a Igreja e dizem que ela não pode interferir nas leis do país. Mas ninguém pode tirar dos cristãos o direito democrático de dizer que o Estado deve cuidar da defesa dos direitos humanos. Os direitos de cada um são limitados pelos direitos dos outros.Muitos querem liberar o aborto em nome dos direitos da mulher.   E os direitos da criança, onde ficam? O Estado precisa defender os direitos dos mais fracos. Os mais fortes já sabem cuidar da sua defesa.

Usei de palavras pesadas ao falar contra práticas abortivas. Muitos dizem que o rigor da Igreja faz aumentar “complexos de culpa” de quem fez aborto em situação difícil. Quando se trata de culpa mesmo, não adianta querer arrancar um complexo de culpa. Mas a missão da Igreja não é de condenar o pecador. Nem de jogar pedras.

Jesus nos deu a lição diante da mulher que homens flagraram em adultério. Disse aos  acusadores: Quem não tiver pecado jogue a primeira pedra. Depois disse para a mulher ir embora em paz e não pecar mais.

Um dia de diário exagerado.

janeiro 6th, 2013

Meu Diário Raro ficou meio ano parado. Mas o livro do Otto me levou a botar  no diário quase um livro. Tão grande que não sei se alguém vai ler até o fim. Mesmo assim, resolvi confiar essas anotações pessoais ao meu BLOG.

31 12 12       Começaria tudo outra vez … 

Esta afirmação de Otto Santana no título do seu livro posso fazer também. Fomos colegas de estudo em Roma, nos tempos interessantes do Concílio Vaticano II.  

Quando seu livro chegou, primeiro ficou na fila de espera. Imaginava algo parecido com o jornal RUMOS de padres casados, recheado de ressentimentos e justificativas, e reclamações.   Mas a lembrança do longo convívio no Pio Brasileiro e na Universidade Gregoriana  fez a curiosidade vencer. Na chegada do ano novo posso também permitir-me uma folga.

Depois de algumas páginas, de vez em quando fecho os olhos para ler nas entrelinhas ou pensar na minha própria caminhada. Nos primeiros anos ainda seguia com todo rigor os conselhos de formadores conservadores que diziam: De mulher e de fogo mantenha distância, para não pegar fogo. Acho que foi essa prudência que me fez superar algumas tentações nos meus caminhos, antes e depois da ordenação.

Chegando à minha primeira paróquia,  para substituir um padre que tinha saído para casar, fui apresentado por um colega à presidenta do apostolado que me recebeu com cara desanimada. Mais tarde soube que ela dizia por aí: “O padre velho e acabado saiu para casar. Este padre, novo e bonitão, não vai aguentar até o fim do ano.”

O padre anterior me fez confidências e advertências assim: Tenha muito cuidado para evitar uma queda! Enquanto não experimentou os prazeres do sexo, dá para aguentar, mas depois fica muito mais difícil. Será?   Ele mão conhecia o peso da curiosidade?

Agora, num mundo que não dá valor à virgindade nem da mulher, surgem psicólogos a recomendar que seminaristas tenham experiências sexuais. Para vencer a curiosidade?

Acho que a carência maior de um celibatário não está no campo sexual, mas no campo afetivo. Muita confusão se faz entre as duas dimensões. Tempos atrás foi feita no Brasil um levantamento sociológico entre os padres com esta pergunta: Como padre,  você  já teve um envolvimento afetivo com mulher? Não sei se a ambiguidade daquela pergunta foi por ignorância ou por malícia dos pesquisadores.

Foi num tempo que já me sentia mais seguro, e não precisava mais manter distância exagerada de mulher. Não sabendo o que eles entendiam com envolvimento afetivo, preferi não responder. Aconteceu o que eu imaginava: As respostas afirmativas foram interpretadas no sentido de prática de sexo. Baseados nas respostas, espalharam no  mundo inteiro a notícia que a maioria dos padres brasileiros era infiel ao celibato.  

A minha opção pela vocação sacerdotal sempre foi motivada pela percepção da importância vital de padres para a Igreja e para o mundo. Se a mesma motivação continua com força suficiente para mim, não me cabe julgar colegas que escolheram outra direção, num momento de nova encruzilhada na caminhada da vida.

1   1   13      A leitura sobre as férias na Itália veio confirmar o que já tinha lido nas entrelinhas do primeiro capítulo: faltava algo anterior ao março e abril de 75. Uma primeira confirmação disso já estava numa pequena observação sobre um certo pressentimento da irmã de Juci, antes da viagem a Roma: “Os olhos de Juci brilham quando fala desse amigo.”  Um indício sobre um tempo de encantamento anterior.

Na minha vida também surgiram momentos de encantamento, e até de pegar fogo, quando já me sentia mais seguro para achar que não precisava manter tanta distância de mulher. Quando percebi comentários do tipo “lá tem coisa”, achei melhor apagar o fogo antes que virasse incêndio, por mais que amar e sentir-se amado, mesmo dentro dos limites estreitos do celibato, possa ser fonte de alegria. Posso entender o tamanho do dilema do Otto numa nova encruzilhada da vida. Depois de uma longa caminhada, quando o caminho já parecia bem definido para o resto da vida, a necessidade de fazer uma escolha. Era para optar entre o dever e o amor? Parecia mais opção entre dois amores, algo como escolher entre um e outro de gêmeos que pedem para nascer. 

Acho que o problema maior da Igreja nestes tempos de crise não é de salvar algumas centenas de celibatos de padres, mas centenas de milhões de casamentos. Como fazer o mundo de hoje perceber o valor do sexto mandamento para a vida em família? Que o adultério estraga o amor, até materialistas egoístas ainda conseguem compreender. Mas como fazer a juventude entender a importância do não pecar contra a castidade?

Um dos problemas é a confusão entre sexo e afeto. Confusão que levou a mentalidade dominante a duvidar da possibilidade de uma amizade pura entre um homem e uma mulher, entre um rapaz e uma moça, e agora até entre duas pessoas do mesmo sexo.  Pergunta de psicólogo amador: Existe amizade sem afeto, sem sentimento, sem amor?

Precisamos aprender a distinguir também entre homossexualidade e homoafetividade. O pecado não está na atração dos sentimentos, mas nas práticas sexuais.  A Igreja não pode deixar de dizer que elas são pecado quando realizadas fora do ambiente familiar protegido pelo casamento entre um homem e uma mulher. Estou imaginando uma solução para pessoas com atração homoafetiva exclusiva e inata, (se é que isso existe). Não seria viável uma união estável com proposta de castidade. Sem ninguém saber, deixando os outros imaginar o que quisessem. Se tal propósito ficasse conhecido, eles serviriam de chacota para este mundo hedonista que “está em outra”.  

Cabe à Igreja apenas apresentar o ideal, e nunca jogar pedras em famílias que vivem de maneira diferente. Deus deixa o sol brilhar sobre todos.

Ao ver o nome de Dom Eugênio surgir, logo pensei que lá vem tempestade. Mas o primeiro encontro, em Roma, foi tão tranquilo que parecia mesmo a calmaria antes da tempestade. Agora cheguei à beleza das rosas de Juci. Flores bonitas e transitórias. Em vez do embate com Dom Eugênio veio a paz da compreensão do Dom Nivaldo.

Pela história de Juci passei com passos apressados, com vontade de chegar ao embate entre Otto e Eugênio e devorar o resto do livro ainda hoje. Amanhã tenho muitos afazeres a fazer. Primeiro, um exame médico par ver a situação do coração.  Depois, tentativas para conseguir algum dinheiro com a venda de vacas magras que passam fome com nova seca. Não sabia que ser aposentado é viver tão ocupado.

2  1  13                    Ontem não consegui terminar o livro. O Eco Doppler Cardiograma desta manhã diz que o coração ainda bate forte, mesmo com arritmia. Melhor talvez com marca-passo, e não andar preocupado com muita cosa. Hora de abreviar este diário.

As observações de Otto sobre os estudos em Roma me fazem lembrar algumas razões que me fizeram parar no Brasil. Muitas circunstâncias surgidas ao longo de minha caminhada de jovem procurando seu destino parecem coisas do acaso. Cresci numa paróquia rural, com menos de mil habitantes, quase todos católicos, atendidos por um pároco e um padre cooperador mais novo. A pequena Diocese de Sankt Gallen tinha tantos padres que um padre novo só era pároco depois de muitos anos.  

Nossa fazendinha ficava no limite do município, a 3 km da igreja e da escola. Com aulas de manhã e de tarde, eram 12 km por dia. De bicicleta, quando o tempo permitia. Todo domingo, Missa e catequese. Às vezes de charrete, para alegria nossa. Para as crianças da segunda ou terceira séria, primeira comunhão. Na quinta série, crisma.

Um dia apareceu um missionário velho nascido na nossa paróquia, expulso da China depois de muitos anos de prisão, sofrendo por maus tratos e por não poder cuidar da sua missão. Mesmo assim, sem lamúrias, e com vontade de poder algum dia voltar.  Foi com sua pregação que tive a primeira ideia sobre a importância de padres para a Igreja e para o mundo. Surgiu o primeiro interesse pelas missões.

Outro dia, um frade capuchinho veio à nossa escola para falar sobre vocações. Depois perguntou se algum menino queria estudar no colégio deles para ser missionário.   Dois colegas se apresentaram. Eu queria falar também, mas era acanhado demais .

Pelo que me lembro, nunca senti atração para ser padre, para ficar na frente dos outros a falar de Deus, dirigir orações, celebrar sacramentos. Nunca fui coroinha.

No fim do sexto ano primário era preciso fazer uma opção entre continuar na escola primária para mais dois anos e completar assim a escolaridade mínima, ou passar ao curso ginasial como preparação para mais estudos. Não sei bem como consegui convencer meu pai para poder entrar no internato do colégio dos capuchinhos em Appenzell e fazer os sete anos até a MATURA, coisa que implicava em muitas despesas para um pequeno fazendeiro com sete  filhos para criar, naqueles tempos difíceis, até na Suiça, depois da guerra.

Estou escrevendo essas coisas, por pensar em mandar ao Otto este pedaço do meu Diário, também com as reflexões anteriores mais pessoais, imitando um pouco da coragem do Otto.

Nos sete anos com os capuchinhos, minha vocação ficou mais firme, ainda mais com um ano missionário celebrado na Suiça, ao ponto de pedir para entrar no noviciado dos capuchinhos em Lucerna, pensando nas missões dos deles na África. Por outro lado, fiquei sabendo que a Igreja estava crescendo muito na Africa, mas perdendo o mesmo tanto de católicos na América Latina.  A informação chegou a ser um choque para mim. Como que pode ser que a Igreja esteja diminuindo na região mais católico do mundo?  Pelas informações, a razão estava na falta de padres naquela região.  Assim começou a minha vocação de missionário nalgum país latino-americano.

Nas últimas férias de Páscoa do tempo do Colégio fiz uma viagem a Roma. Não tendo guia turístico, pegava carona em grupos de peregrinos com seu cicerone. Fiz uma visita à Gregoriana. Não sei se me passou pela cabeça a ideia de um dia estudar em Roma.  

Entre a conclusão do curso em julho e o início do noviciado em outubro ficou um tempo de férias que resolvi aproveitar para uma viagem de despedida do mundo. Aceitei o convite para uma visita em Londres que tinha recebido em Assis de uma família inglesa. Atravessei a França de bicicleta, com parada de quinze dias em Paris, onde o dinheiro acabou. Consegui um emprego num caminhão de mudanças de um francês com boa lembrança da Suiça que o tinha acolhido como fugitivo da guerra. Visitei os pontos turísticos, mas a curiosidade me levou também a um centro de comunistas para conhecer as propostas deles.

Em Londres rodei pela cidade toda de bicicleta, de metrô e de ônibus. Para poder ficar mais uns dias, vendi a bicicleta e voltei de trem.

Entrei no NOVICIADO com duas propostas. A primeira, de ficar o ano todo. A segunda, de só depois resolver o que fazer depois. Ficamos separados do mundo. Acho que a única notícia de fora que lá chegou foi sobre o Sputnik, o primeiro satélite. Muitos achavam uma coisa formidável. Alguns pensavam que era mentira da propaganda dos Russos.  Eu achei que não era nada demais, coisa que era possível fazer muito antes.

Fui um noviço tão disciplinado e obediente que ainda estou com algo de franciscano. Uma dúvida sobre meu futuro ficou mais forte: Seria mesmo enviado às missões dos capuchinhos? Ou seria para o resto da vida professor de ciências na Suiça? Quase todos os professores daqueles colégios eram capuchinhos. A província deles na Suiça era a maior do mundo, com 800 frades.  Algumas décadas depois tiveram que fechar os internatos por falta de capuchinhos. Professores leigos custavam muito mais, e o ensino público ficou mais acessível para jovens do interior.  Mais tarde, os colégios deles foram entregues ao Estado. O número de capuchinhos baixou para 200. Se eu continuasse na Suiça, talvez estaria entre os muitos frades desistiram do ministério.

Parece que o espírito biográfico do Otto me contaminou. Preciso resumir, que tenho outras tarefas a realizar. Quando apresentei ao mestre de noviços o meu propósito de sair, ele apelou para a obediência e disse que minha obrigação era ficar. Respondi que a opção entre ficar ou sair era da minha exclusiva responsabilidade.  

Minha decisão foi reforçada por um sonho estranho. Estava na margem de um mar agitado. No turbilhão das ondas uma multidão lutando para não afundar. Eu ficava gritando para eles da segurança da minha praia, que viessem também para se salvar. Mas percebi que nem me ouviam, e que minha missão não era falar para eles de meu lugar seguro, mas mergulhar no mar para ajudar.

Quando deixei o noviciado, me senti um estranho no mundo. Precisei fazer ainda o serviço militar obrigatório de quatro meses, do qual era dispensado como religioso. Um ambiente totalmente diferente!    

Meia Noite, hora de terminar!   

3  -  1  -  13                Depois passei um ano a trabalhar numa fábrica em Zurique para ter uma experiência da realidade operária, e para conseguir uma reserva de dinheiro. Consegui horários flexíveis na fábrica para poder frequentar umas aulas na Escola Superior de Tecnologia e na Universidade de Zurique, sem nenhuma pretensão de ter diploma. Queria conhecer um ambiente universitário “neutro”, sem “tutela” de igreja.

Em 1959 resolvi fazer um ano de filosofia na Universidade dos Dominicanos em Friburgo na Suiça, onde podia ficar hospedado na casa para seminaristas da Diocese de St. Gallen e para outros estudantes. Era um ambiente favorável para começar a definir o meu caminho. Fui pedir acolhida ao Bispo de St. Gallen, dizendo logo que não queria ser padre da Diocese, mas missionário na América Latina. Fui muito bem acolhido.

Entre os países da minha lista de opções, o Brasil ficou de fora, porque já tinha feito cursos de espanhol. Além disso, países como Nicarágua, Equador e Guatemala tinham um número ainda maior de católicos por padre.  Mas o Brasil também tinha Estados em situação muito precária, e algumas dioceses na Bahia também. Não sei por que, mas a Bahia me atraía, e a língua portuguesa podia ser aprendida. Por acaso encontrei um padre bahiano fazendo turismo na Suiça, coisa que achei um escândalo. Mas ele me deu uma dica: Dirigir-me ao arcebispo da Bahia para pedir que ele me indicasse um bispo disposto a acolher um jovem aventureiro querendo ser padre no Brasil.

A primeira coisa prática na direção ao Brasil foi uma viagem a Portugal nas férias de Páscoa de 1960. De carona, (autostop), mochila nas costas, e bandeira suíça. Friburgo  – Lyon  – Marseille – Barcelona -  Zaragoza – Madrid – Lisboa. Na Espanha, todos falando mal de Franco. Em Portugal, ninguém criticando o Governo. Parecia um Governo mais popular. Depois de fazer amizade com alguns, percebi o contrário: Quando perguntava sobre Salazar, depois de olhar se não havia desconhecidos na área, faziam críticas mais radicais. Com ajuda de alguns estudantes, consegui ser acolhido numa casa do Governo para estudantes, mas só depois de um interrogatório por um subsecretário de educação, para conferir se eu não era comunista.

Com três estudantes passei dois dias em Fátima, naquele tempo ainda um lugar de pouco movimento. Meus companheiros faziam barulho noturno com seus violões, ao ponto que a dona da casa exigir um pagamento especial para ela não dar uma queixa. Sobrou para mim. Restando pouco tempo para o início das aulas em Friburgo, fui de trem até Bordeaux, na costa oeste da França, ficando com dez francos para atravessar a França toda. Uma noite dormi num estábulo vazio, outra noite na casa de um padre descontente da vida, já perto da Suiça.

Depois criei a coragem de mandar uma carta ao Arcebispo de Salvador, pedindo que me indicasse um bispo de uma diocese que precisasse muito de padres e acolhesse um candidato estrangeiro. Para quem conhece Dom Augusto, a resposta acolhedora dele foi surpreendente. Em vez de viajar logo para estudar no Brasil, recomendou o estudo da teologia em Roma, onde Salvador tinha duas bolsas de estudo no Colégio Brasileiro.

Com alegria fiz uma carta de apresentação à direção do colégio. Para minha decepção, a resposta foi negativa, dizendo que o Colégio era só para brasileiros, e que as bolsas eram do tempo da guerra e não pagavam uma semana. E agora, Christian?

A primeira reação foi de desânimo, de entregar os pontos, de desistir. Tinha tentado, tinha feito a minha parte. Se não me queriam, o meu destino era ficar na Suiça, numa vida mais tranquila.Mas não sou de desistir facilmente. Passei da coragem à ousadia. Escrevi que tinha solução para os dois problemas. Quanto ao primeiro, um Colégio só para brasileiros, era que eu queria, tornar-me brasileiro. Quanto ao problema da bolsa, eu podia resolver com meus recursos e continuando a trabalhar nas férias na Suiça.  

Acho que a presença do padre Oscar Müller no Colégio, jesuita nascido em St. Gallen, pesou ao meu favor. Os quatro anos no Pio Brasileiro foram um tempo muito bom. Como não havia nenhum bahiano no Colégio, o bahiano era eu.

Este é um diário estranho. Depois de seis meses parado, de repente enchendo páginas. E ainda falta um pedaço sobre minha vida de padre e bispo. Minha ordenação foi em St. Gallen, junto com uma dúzia de padres novos da Diocese. Um deles era o padre Gaspar que mais tarde foi para Salvador, convidado por Josef Romer, também da nossa Diocese. Dom Romer é mais velho, mas veio a Salvador convidado por mim.

Minha Primeira Missa foi na paróquia da minha infância, na semana de notícias da “Revolução” brasileira. Perguntavam: Como é que você vai para um país de tanta confusão? Respondi que não me preocupava, que brasileiro sabia dar um jeitinho.

Já fui longe demais com estas divagações biográficas, mas ainda preciso dizer que nem tudo foi um navegar tranquilo num mar de rosas em 15 anos de padre e 33 de bispo.  Quando era difícil ver um resultado do meu trabalho dedicado, e às vezes desajeitado, surgiam perguntas: Não seria melhor desistir para cuidar da minha vida?

 Um padre como Otto, de muita dedicação ao trabalho de promoção social, talvez possa ver mais resultados dos seus trabalhos. Mas podem surgir perguntas como esta: Precisava ser padre para fazer isso? Será que o mesmo trabalho não podia ser feito por leigos? A desistência de muitos padres bons dedicados ao trabalho social pode ter uma raiz num questionamento assim.

 Para mim continua a motivação do início, a percepção da importância do serviço insubstituível dos padres para a Igreja e para o mundo. Quanto à problemática questionável do celibato obrigatório para padres: A solução não está em diminuir as exigências, mas em aumentar a disponibilidade para carregar essa cruz.

Quanto ao casamento, a Igreja não pode deixar de dizer que os casais também precisam carregar as cruzes da vida familiar. O peso de doença grave de alguém da família, por exemplo. Dificuldades materiais. Problemas de comportamentos e de convívio. São Paulo já disse: “Carregai o peso uns dos outros”. Vale também para a comunidade paroquial, e até para a política.

Por outro lado, todos podem alegrar-se com a beleza das flores que surgem na beira do caminho e podem ser cultivadas nos jardins da sua vida. A arte de viver é apreciar perfumes e cores das flores, em vez de ficar a mexer nos espinhos.

Acabei escrevendo quase um livro. Quando começo a soltar as rédeas da imaginação, as ideias vão longe e não querem parar.  Mas falta explicar como vim parar em Ilhéus. Enviei carta ao Dom Augusto sobre minha vontade de passar as últimas férias no Brasil.

A resposta dele foi estranha: Como é que o senhor está no Pio Brasileiro, sem a nossa autorização? Admito que era muita negligência minha nunca mais ter escrito para ele. Mais uma vez me fiz de ousado. Pedi que deixasse bem claro se ainda me queria para Salvador. Disse também que para mim não era problema partir para outro lugar.

Convites não faltavam, para o Ceará, para João Pessoa, etc. Mas eu queria a Bahia. Logo veio um convite do padre Shelley, de Ilhéus, o único Bahiano em Roma. Fazia o curso de doutorado em direito canônico e civil. Era capelão de irmãs, em frente da entrada dos Museus do Vaticano. Além de encaminhar a minha aceitação pelo bispo de Ilhéus, o capuchinho Dom Caetano, apoiou também a viagem de férias.

Viagem de avião, de trem, de ônibus. Em Ilhéus aproveitei para fazer um trabalho de sociologia religiosa. Para saber que mudanças o povo desejava ver acontecer na Igreja. Muitos reclamavam contra uma coisa que críticos mais radicais costumam chamar de comercialização de sacramentos. Foi assim que surgiu o meu empenho contra a cobrança de taxas e espórtulas. Mais tarde, os Bispos da América Latina reunidos em Medellin apresentaram a proposta de superar, com a graça de Deus e com apoio da boa vontade do povo, o sistema infeliz de taxas para sacramentos.  Lamento que a recomendação de substituir tais taxas pela colaboração de algum tipo de dízimo livre ainda não foi acolhida por todos os católicos.

Começando com um rápido registro avulso no meu diário bissexto acabei escrevendo quase um livro. Ao deixar a imaginação divagar, as ideias vão longe, não querem parar. Tentei resumir o texto que mandei para Otto, mas ainda acrescentei mais um pedaço. Talvez até venha colocar este texto no meu BLOG, mesmo que tenha pensamentos bem pessoais. Não sei se alguém vai ler até o fim, pelo tamanho que tem.

Jequié, 03/01/13          + Cristiano, bispo velho de Jequié. Aposentado, mas não parado.